sexta-feira, 31 de julho de 2015

Um disco por dia: Chris Robinson Brotherhood - Big Moon Ritual (2012)

17:39

Em um mundo cada vez mais frenético, nervoso e individualista, o ato de ouvir música passou por uma transformação profunda. Há poucos anos atrás, escutar um disco era uma atividade tangível. Você comprava o LP, levava pra casa, abria o plástico da embalagem, tirava o disco com todo cuidado, colocava o vinil na vitrola e curtia sem pressa aquilo que o artista havia criado. Hoje não é mais assim. Atualmente, você ouve um amigo falar de uma banda, ou escuta uma canção na TV, e vai já correndo para o computador atrás do arquivo para baixar, colocar no seu MP3 player e ouvir entre as centenas de faixas que estão ali. A música não tem mais cara e ficou resumida a um arquivo sem identidade perdido entre tantos outros.

Na contramão dessa correria toda, eis que desabrocha um antídoto para o borrão que virou o cotidiano da maioria das pessoas. Como um Messias hippie deslocado no tempo e extremamente orgulhoso de sua condição, surge no horizonte a figura de Chris Robinson, vocalista do The Black Crowes. 

Sem o irmão quase siamês Rich ao seu lado devido ao hiato no qual os corvos se encontram, Chris chamou o guitarrista Neal Casal (que tocou com Ryan Adams por muito tempo), o tecladista Adam MacDougall (parceiro nos Crowes), o baixista Mark Dutton (Burning Tree) e o baterista George Sluppick (que tocou com um sem número de grupos). O quinteto excursionou por um ano pelos Estados Unidos azeitando a química entre os integrantes, e, felizmente, conseguiu transportar para o estúdio toda a alquimia sonora construída entre os músicos.

Batizado como Chris Robinson Brotherhood, o CRB lançou em junho de 2012 o seu primeiro disco, Big Moon Ritual. O play tem apenas sete faixas - mas que 7 faixas! O astral aqui é contemplativo, tirando o ouvinte da correria, desacelerando o seu organismo e colocando-o em outro estado de espírito. Quatro das faixas tem mais de sete minutos. Duas delas ultrapassam os nove. E “Tulsa Yesterday”, que abre a bolacha, quase supera a barreira dos doze minutos.

Big Moon Ritual proporciona uma espécie de comunhão hippie entre a banda e os felizardos que ouvem o álbum. A sonoridade é calma, baseada no blues embebido com onipresentes características do soul e do country. Isso dá uma cara bem rural, bucólica e interiorana para a coisa toda. Chris Robinson chama você para um papo, acende um cigarro, serve um whisky e conta histórias sem pressa. Ao final da garrafa ambos os lados, banda e fãs, sentem-se como velhos amigos, integrantes de uma mesma irmandade, despreocupados com o mundo e ligados realmente no que importa: a vida, e apenas ela.

Não há destaques individuais, assim como nenhuma música se sobressai às outras. O que temos aqui é um trabalho conjunto de uma banda formada em torno de uma mesma visão de mundo, um disco que é muito maior que a soma de suas faixas. 

Big Moon Ritual é o contraste necessário, o carro que vem na direção contrária, o cara que contesta o senso comum. É o pensar diferente da maioria, acreditando que é possível ter uma vida muito mais completa que a que temos, cercados por computadores, cumprindo prazos cada vez mais apertados buscando alcançar expectativas sempre mais elevadas. Big Moon Ritual é o inverso disso tudo. Ele faz a gente colocar os pés no chão e repensar se a correria e o stress do dia-a-dia realmente valem a pena. E, ao final de sua deliciosa audição, a resposta está na ponta da língua: é claro que não.

Você um dia acordou e percebeu que o verdadeiro prazer está nas pequenas coisas, em estar perto de quem você ama, junto de quem te conhece quase mais do que você mesmo. Big Moon Ritual é a trilha para esse sentimento. 

Ouça, e descubra um eficiente atalho para a felicidade!

Todos os dias, um review analisando um álbum da minha coleção. Leia no volume máximo, ouça com o coração aberto.

Como o Metallica definiu uma vida

15:41

Calças jeans, camiseta, o inseparável All Star nos pés e alguns pêlos na cara. Foi assim que, do alto dos meus 14 anos, no longínquo 1986, entrei em uma loja de discos no interior do Rio Grande do Sul para realizar um ritual que me acompanharia pelo resto da vida: garimpar novos álbuns, descobrir novas bandas, ouvir novos sons.

Fuçando nas prateleiras repletes de LP, folhando cada um dos títulos que se sucediam à minha frente, eis que dou de cara com um álbum que me fez parar, suar frio e sentir minhas pernas tremerem. Era Ride the Lightning, segundo disco de um grupo muito falado por aqui, mas pouco ouvido naquela época: o Metallica.

Muito falado porque as revistas especializadas de meados da década de 1980, como a paulista Rock Brigade e a carioca Metal, não cansavam de estampar a banda em suas páginas, sempre com elogios enormes para aquele então iniciante e relativamente desconhecido quarteto californiano. Pouco ouvido porque, diferente de hoje em dia, quando praticamente qualquer bandeca oriunda dos mais remotos cantos do mundo tem seus discos disponibilizados na internet e nos mais diversos canais, naquele tempo isso não acontecia. Encontrar aquele álbum daquela banda que você queria muito conhecer - e não podia, porque não havia MP3 para baixar, ou você comprava o LP ou pedia para um amigo seu que tinha o título gravá-lo em fita k7 para você - era, quase sempre, um exercício de paciência e garimpo.

Foi por isso que, naquele dia, subitamente minhas pernas cambalhearam, fiquei pálido e suei frio. Ali, na minha frente, estava um disco sobre o qual eu já havia lido muito, de uma que eu sabia o nome dos integrantes de cor, mas cujo som eu ainda não havia colocado os ouvidos! Foi com as mãos tremendo e um misto de calma e euforia que peguei o LP, com os olhos vidrados naquela bela capa azul repleta de raios, e me dirigi até a cabine para ouvi-lo. Em um misto de apreensão e ansiedade, com o coração saindo pela boca, retirei o vinil de dentro do plástico, coloquei-o sobre o prato e, com a mão tremendo, dirigi a agulha até seus sulcos.


O som que saía do fone de ouvido era o de um belíssimo violão sendo dedilhado, preparando o caminho para o que viria a seguir. Quando o riff de "Fight Fire with Fire" finalmente surgiu, com suas guitarras pesadíssimas, rápidas e cheias de palhetadas empolgantes, foi um soco no estômago! Naquele momento experimentei uma sensação que nunca mais iria se repetir em toda a minha vida: o que saía dos sulcos daquele LP era o som que habitava a minha cabeça adolescente há tempos, me empolgava em meus sonhos juvenis delirantes, mas que eu nunca havia topado pela frente - até então!

As faixas se sucediam, e o sorriso em meu rosto ia tomando proporções épicas, enquanto, apesar de o meu corpo permanecer dentro daquele loja de discos, minha mente estava nos mais incríveis e distantes lugares, menos ali. "Ride the Lightning", "For Whom the Bell Tolls", "Fade to Black", "Trapped Under Ice", "Escape", "Creeping Death" e a incrível "The Call of Ktulu" tiveram um impacto imediato e gigantesco, transformando-se, sem pedir licença, na trilha sonora da minha vida.

Música é emoção. Para quem ouve, para quem compõe e para quem toca. Tentar racionalizá-la é transformar um lindo quadro repleto de cores em uma tela sem vida. É por isso que aquilo que vivemos com tanta intensidade, as experiências que marcaram nossas vidas, nos acompanham até o final de nossos dias. É por isso que, mesmo passados quase trinta anos daquele primeiro encontro, até hoje sinto algo diferente, um frio na espinha, toda vez que ouço qualquer coisa do Metallica.

Ter uma experiência musical tão intensa quanto essa é o que diferencia um ouvinte comum de caras como eu e como você, que tem a música como elemento fundamental de suas vidas. O poder da música, a paixão que ela nos faz sentir, com o coração batendo mais forte e a cabeça balançando involuntariamente toda vez que o som sai dos alto-falantes, mesmo quando você já deixou de ser um adolescente há tempos, é o que nos faz sentir vivos, com o sangue pulsando nas veias e a energia rolando pelo corpo.

É por tudo isso que James Hetfield, Kirk Hammett, Lars Ulrich e companhia sempre farão parte da minha vida - eternamente, em alto e bom som.



Como preparar barras de carne, comendo só Nutella por uma semana e o filme da Liga da Justiça

quinta-feira, 30 de julho de 2015

Um disco por dia: Baroness - Yellow & Green (2012)

18:29

Há uma mudança de curso em Yellow & Green, terceiro disco da banda norte-americana Baroness. Pretencioso até a alma e bom até dizer chega, o álbum - duplo, com 18 faixas - traz o quarteto investindo em uma sonoridade mais ampla, que vai muito além do sludge com elementos progressivos dos trabalhos anteriores, Red Album (2007) e Blue Record (2009).

Produzido por John Congleton (Modest Mouse, Okkervil River, The Polyphonic Spree), Yellow & Green é um trabalho repleto de detalhes. Pesado, psicodélico, atmosférico e experimental, tudo ao mesmo tempo, o disco coloca os holofotes da música pesada focados no grupo. Resumindo em palavras: neste disco, o Baroness soa como se o Radiohead tocasse heavy metal. Não há limites, a criatividade é onipresente, não existem preconceitos, os medos e receios foram todos embora. Isso faz com que cada faixa seja imprevisível, cada composição seja um choque. E é justamente essa sensação que faz Yellow & Green ser um disco tão impressionante.

Indo muito além do padrão e fugindo das conveniências, o Baroness arrebata. John Baizley e Peter Adams derramam guitarras gêmeas inspiradas em diversos momentos, enquanto Matt Maggioni e Allen Bickle - baixista e baterista, respectivamente - trabalham como um ser único de duas cabeças, quatro braços e um mesmo objetivo. 

A principal qualidade de Yellow & Green é que trata-se de um álbum que tem como ingrediente principal algo cada vez mais em falta na música: a alma, o coração. As canções emocionam, as melodias são simples. O sentimento é palpável e contagia o ouvinte.

É até um pouco estranho uma banda atual lançar um álbum duplo com 18 faixas inéditas. Mas mais surpreendente que isso é o fato de essas faixas serem todas pertinentes, fazendo com que os pouco mais de 70 minutos do disco passem rápido e sem traumas. Há reminiscências de Pink Floyd, Mastodon e Radiohead aos montes durante todo o play, em uma tapeçaria sonora precisa e tocante.

“Take My Bones Away”, primeiro single, é uma das melhores músicas dos últimos anos. “Eula”, o segundo, é o tipo de faixa com poder para conquistar uma pessoa por anos. “Cocainium” soa como se o Mastodon tivesse gravado Ok Computer. A beleza e a melancolia são onipresentes em Yellow & Green.

Quando se é um consumidor, um colecionador de discos e um ouvinte de música há um certo tempo - no meu caso, há 30 anos -, a gente aprende a identificar, de imediato, aqueles trabalhos que são mais que simples CDs ou LPs, e que irão nos acompanhar por toda a vida. Yellow & Green é um deles. Um novo parceiro, que chega e já encontra o seu lugar confortável na vida de quem curte um som inovador, original e sem medo de experimentar novos caminhos. 

Música com vida e com alma, capaz de deixar qualquer um com o coração na boca: assim é Yellow & Green, um dos grandes discos desta década.

Ouça e dê um presente para a sua vida.

Todos os dias, um review analisando um álbum da minha coleção. Leia no volume máximo, ouça com atenção.

Caminhando sobre a lua: a história do Concrete Blonde

15:27

Um dos nomes mais importantes do rock alternativo norte-americano dos anos 1990, o Concrete Blonde tem uma carreira repleta de excelentes discos e canções marcantes, onde o feeling é o prato principal de uma sonoridade que traz elementos de hard rock, surf music e gótico. 

O embrião da banda nasceu em 1982, em Los Angeles, quando a vocalista e baixista Johnette Napolitano e o guitarrista James Mankey formaram o Dream 6. O conjunto durou pouco e lançou apenas um EP, auto-intitulado, pela gravadora francesa Happy Hermit, mas que não deu em nada. A dupla seguiu na ativa compondo e se apresentando pela Califórnia, e em 1986 assinou com a I.R.S. Records. Por sugestão do colega de selo Michael Stipe, vocalista da então novato R.E.M., resolveram trocar o nome para Concrete Blonde, termo que, segundo Stipe, descrevia com perfeição o contraste entre o som pesado e cheio de energia e as letras extremamente introspectivas de Johnette.

Uma curiosidade: “concrete blonde” era também um termo depreciativo aplicado às bandas de hard rock de Los Angeles, cujos músicos usavam e abusavam de permanentes e sprays fixadores para armar as suas discutíveis cabeleiras. Bata o olho em algumas imagens do período, de nomes como Ratt e Poison, e entenda.


Johnette e Mankey chamaram então o baterista Harry Rushakoff (que havia tocado no Special Effect, primeira banda de Al Jourgensen, do Ministry), entraram em estúdio e saíram de lá com um excelente disco de estreia. Lançado em 1986, Concrete Blonde, o álbum, foi aclamado pela crítica, que adorou o rock alternativo com elementos de punk e gótico do trio. Produzido por Earle Mankey - guitarrista do Sparks e responsável por álbuns das Runaways, The Dickies e The Three O’Clock -, o LP trazia doze faixas refrescantes, todas compostas por Johnette Napolitano - as exceções são a instrumental "True”, de James Mankey, e a ótima versão para “Beware of Darkness”, de George Harrison.

Nesse primeiro disco já ficaram claras as principais características do grupo. Tendo como elemento principal a bela voz grave de Johnette, sempre emoldurada pela guitarra cheia de personalidade de Mankey, o Concrete Blonde chamou a atenção com composições fortes e muito bem construídas como “Dance Along the Edge”, “Over Your Shoulder” e “Cold Part of Town”. Ao lado delas, explosões sonoras que mostravam as raízes punks do trio e soavam como verdadeiros tapas na orelha, como “Your Haunted Head” e “Still in Hollywood”. E, fechando com chave de ouro, as pequenas jóias pops “Song for Kim (She Said)” e “Little Sister”.

O disco rendeu três singles - “Still in Hollywood”, “Dance Along the Edge / Make Me Cry” e “True / True II” e recebeu boas críticas na imprensa especializada. O trio rodou os Estados Unidos tocando sem parar, e retornou ao estúdio somente em 1988. 


Trabalhando novamente com Earle Mankey, contando com a mixagem de Chris Tsangarides e com mais um guitarrista na formação - Alan Bloch -, a banda gravou dez novas faixas, que foram lançadas no início de 1989 no álbum Free. O som estava diferente, com uma personalidade mais forte, com menos elementos do punk e uma presença maior de características góticas.

Está em Free o primeiro grande hit do Concrete Blonde, “God is a Bullet”, parceria de James Mankey e Johnette Napolitano - que, mais uma vez, respondeu por todas as composições. O disco é mais pesado, mais sombrio, que o debut. Destaque para “Roses Grow” - uma espécie de rap construído apenas com a bateria e os vocais de Johnette -, “Scene of a Perfect Crime”, a arrepiante “Little Conversations”, “Carry Me Away” e o pop perfeito de “Happy Birthday”. Vale mencionar também a boa releitura de “It’s Only Money”, do Thin Lizzy, e a linda capa, criada por Johnette em parceria com a artista Anne Sperling.

Devido ao vício em heroína, Harry Rushakoff deixou o grupo em 1990. Para o seu lugar a banda recrutou o ex-baterista do Roxy Music, Paul Thompson, e voltou a ser apenas um trio. A entrada do experiente músico colocou o Concrete Blonde um nível acima, e o resultado foi o espetacular Bloodletting, lançado em 19 de setembro de 1990 e o trabalho preferido de grande parte dos fãs.


A veia gótica ficou ainda mais saliente no terceiro disco, produzido pela própria banda ao lado de Chris Marshall. As dez composições formam um painel que retrata com perfeição o início da década de 1990 no rock norte-americano, que levou à popularização da cena alternativa. O álbum conta com as participações especiais de Peter Buck, guitarrista dos brothers do R.E.M., tocando mandolin em “Darkening of the Light”, e Andy Prieboy, do Wall of Voodoo, responsável pelo teclado na versão de “Tomorrow, Wendy”, do seu próprio grupo.

Uma verdadeira obra-prima, Bloodletting é um clássico do rock alternativo ianque. Novamente com todas as faixas compostas por Johnette Napolitano, o disco tem grandes músicas como “Bloodletting (The Vampire Song)”, “The Sky is a Poisonous Garden”, a já citada “Darkening of the Light” e a doce “Lullabye”. Mas os pontos mais altos são “Caroline”- uma espécie de road song gótica -, a linda “Joey” - cuja letra conta a história da paixão pelo álcool e é uma das mais pessoais escritas por Johnette - e “Tomorrow, Wendy”, que se transformou em hino graças à letra, que conta os últimos momentos de uma paciente terminal de AIDS - a doença vivia, naquela época, os seus primeiros e aterrorizantes anos, apavorando milhões em todo o planeta.

Bloodletting foi o mais próximo que o Concrete Blonde chegou do mainstream. O sucesso inesperado de “Joey” - a faixa chegou à posição 19 nas paradas da Billboard - fez o trio arranhar o sucesso, e a canção acabou se transformando em um dos maiores hits do rock americano dos anos noventa, presente em dezenas de compilações.


O passo seguinte foi o também excelente Walking in London, lançado em 10 de março de 1992. No disco, o trio retomou a parceria com o renomado Chris Tsangarides, responsável pela produção em parceria com a própria banda. O LP marcou também o retorno de Harry Rushakoff após um período em uma clínica de reabilitação. O baixista Tom Petersson, do Cheap Trick, participou tocando em várias faixas.

Walking in London trouxe o Concrete Blonde explorando uma sonoridade um pouco mais pesada, mas mesmo assim mantendo o ambiente sombrio e marcante do gótico. Johnette, novamente responsável por todas as faixas - a exceção é o cover para “It’s a Man’s World”, clássico de James Brown -, experimentou em algumas canções, como na bela “Les Coeurs Jumeaux”, cantada em francês, e na própria releitura de “It’s a Man’s World”, que aparece como um surpreendente blues com tempero gótico. A marcante faixa-título, a linda “Why Don’t You See Me” e “Someday?” - outra jóia pop - são os destaques.


O Concrete Blonde atingiria o ápice no disco seguinte, o ótimo Mexican Moon, lançado em 19 de outubro de 1993. Tendo como tema central o celebração do Dia dos Mortos, data tradicional da cultura mexicana, Johnette alcançou o topo como compositora. Produzido pela banda e por Sean Freehill, o trabalho é praticamente um disco de hard rock, e tem pouco da sonoridade gótica dos álbuns anteriores. Paul Thompson assumiu novamente a bateria, tocando na maioria das faixas enquanto Rushakoff passava por uma nova internação.

A linda faixa-título, que também marca presença em uma interessantíssima versão em espanhol batizada como “Bajo la Lune Mexicana”, é uma das melhores músicas da carreira do grupo. Além dela, a pesada “Heal It Up” - cujo clipe rolou bastante na MTV brasileira -, “Rain”, “Close to Home” e “End of the Line” - de Bryan Ferry - são os principais destaques de um trabalho excelente.

Infelizmente, Mexican Moon acabou sendo o canto do cisne do Concrete Blonde. A banda se separou após a turnê. Mas os fãs não ficaram na mão. Em 1994 foi lançada a ótima compilação Still in Hollywood, com faixas ao vivo, b-sides e material inédito, e em 1996 foi a vez da coletânea Recollection chegar às lojas. Se você nunca ouviu o grupo, recomendo esses dois CDs.

Entretanto, o fim foi apenas temporário. A banda retornou em 1997 com o curioso Concrete Blonde y Los Illegals, gravado ao lado dos compatriotas punks Los Illegals. O disco é bem interessante, e duas das dez faixas entram, certamente, entre os melhores momentos da carreira do grupo - “Viva La Vida” e “La Llorona”. O retorno acabou sendo breve, e os caras se separaram mais uma vez.

O retorno (definitivo?) do Concrete Blonde aconteceu somente em 2001, e de lá para cá a banda tem se mantido ativa, ainda que um tanto bissexta. Desde então já lançaram dois trabalhos de estúdio - Group Therapy (2002) e Mojave (2004) -, ambos apenas medianos, além do duplo ao vivo Live in Brazil (2003), gravado durante a turnê brasileira de 2002. Atualmente, ao lado da dupla Johnette e Mankey está o batera Gabriel Ramirez Quezada.



Johnette Napolitano vive em Los Angeles cercada por dezenas de gatos e lançou alguns álbuns solos no decorrer dos anos. Já James Mankey gravou com a banda Sparks e também colocou no mercado um disco instrumental em 2003.

A força do Concrete Blonde está nas composições de sua líder, vocalista e baixista. Extremamente talentosa e com um talento nato para a melodia, Johnette Napolitano, apesar de pouco reconhecida, é uma das maiores compositoras do rock norte-americano dos anos 1990. Seu trabalho é profundo, extremamente pessoal e tocante, causando identificação com pessoas das mais variadas classes e países. No Brasil, a banda é associada ao surf devido à grande popularidade que possui junto aos adeptos do esporte, mas a sua música vai muito além. Complexa, densa e dona de uma beleza arrebatadora, a obra do Concrete Blonde está entre os pontos mais altos do rock produzido nos Estados Unidos nas últimas décadas.

Se você nunca ouviu o grupo, aproveite este texto e conheça já os discos. Se já conhece, redescubra. Afinal, nunca é demais ouvir música de qualidade.

O que é o amor, os 50 anos do filme Help! e a Turma da Mônica emocionando adultos

quarta-feira, 29 de julho de 2015

Um disco por dia: Return to Forever - The Mothership Returns (2012)

18:18

A ideia é postar um review todo dia, analisando um disco da minha coleção. Vai ser um desafio muito interessante. Vem junto?

O Return to Forever é um dos mais importantes e influentes nomes do jazz fusion. Formado em Nova York em 1971 pelo tecladista e pianista Chick Corea, sempre girou ao seu redor e do baixista Stanley Clarke, fiel escudeiro de Corea em todas as várias encarnações do combo. Uma das mais emblemáticas formações do Return to Forever contava com Chick, Stanley, o guitarrista Al Di Meola e o baterista Lenny White. E foi justamente essa versão que trouxe o grupo de volta, em uma celebrada turnê de reunião realizada em 2008. Porém, Di Meola saiu fora e jogou pra cima o que tinha tudo pra ser um balde de água fria nos músicos e nos fãs - mas acabou não sendo. Corea chamou para o seu lugar o guitarrista original da banda, Bill Connors, que chegou a ensaiar com o trio restante, mas foi impedido de sair em turnê devido a problemas de saúde. A solução foi encontrada então em Frank Gambale, guitarrista da Elektric Band de Chick. E, para dar um tempero extra, os caras chamaram ninguém mais ninguém menos que Jean-Luc Ponty, um dos maiores violinistas da história, para fazer parte do projeto. 

The Mothership Returns é o registro da excursão que o quinteto fez durante 2011. Trata-se de um CD duplo gravado ao vivo, que vem com um DVD extra com material de dar água na boca. A adição de Gambale e Ponty deu vida nova aos clássicos do Return to Forever. Músicos experientes e com sólida formação no jazz que são, o quinteto soube explorar com sabedoria as variações possibilitadas pela inclusão de novas peças no tabuleiro, aplicando um xeque-mate em qualquer pessoa que goste de música. As releituras de “Señor Mouse” e “The Shadow of Lo / Sorceress” beiram a perfeição. A banda toca também “Renaissance”, composição de Ponty presente no álbum Aurora (1975), acrescentando ainda mais dramaticidade e uma dose extra de balanço na jogada.

O registro tem apenas nove faixas, mas todas trazem o esplendor da música instrumental em seu ápice. Chick Corea, Stanley Clarke, Lenny White, Frank Gambale e Jean-Luc Ponty demonstram um entrosamento e uma liberdade instintivos em cima do palco, alcançando resultados que levam o ouvinte à estratosfera. O segundo CD é pródigo nessa sensação, com versões alucinantes de “After the Cosmic Rain” e “The Romantic Warrior”. Mas o ápice ocorre no final, com a dobradinha “Concierto de Aranjuez / Spain” e “School Days”. A primeira é conduzida com maestria por Corea, que prova continuar em forma do alto dos seus 71 anos. Já a segunda, saída diretamente do quarto disco solo de Clarke - também chamado School Days e lançado em 1976 -, é um acachapante funk que desafia qualquer um a ficar parado, e que aqui ficou ainda mais forte que em sua gravação original.


Um fato que chama a atenção em The Mothership Returns é que, em diversos momentos, o fusion do Return to Forever aproxima-se sem cerimônias do rock. Seja no peso de algumas passagens, nos arranjos montados pela banda ou na agressividade com que os músicos tocam, tem-se a impressão, em vários trechos, de estarmos ouvindo um disco de prog rock instrumental e não a reunião de alguns dos maiores nomes da história do jazz, o que só atesta o quão próximos estão os gêneros citados.

Poucas vezes ouvi um álbum ao vivo tão pulsante e intenso quanto The Mothership Returns. São pouco mais de 110 minutos de uma música estupenda, que cativa de forma profunda e atualiza a obra do Return to Forever, que já era impressionante. A inclusão de Gambale e Ponty foi uma jogada de mestre, dando nova vida e rejuvenescendo um dos catálogos fundamentais do jazz fusion.

A história do álbum Wish You Were Here, clássico do Pink Floyd

15:11

Lançado em 12 de setembro de 1975, Wish You Were Here é o nono álbum do Pink Floyd e o sucessor do multi-platinado The Dark Side of the Moon, de 1973. Um dos discos preferidos dos fãs, é também o favorito de David Gilmour e do falecido Richard Wright, que declararam em entrevistas a sua predileção pelo trabalho.

A História de Wish You Were Here é um documentário escrito e dirigido por John Edginton, que já havia abordado a trajetória da banda em The Pink Floyd and Syd Barrett Story, produção de 2003 onde atuou como produtor. O filme, lançado em DVD no Brasil em 2012 pela ST2, conta com entrevistas e depoimentos de Gilmour, Wright (cenas captadas em 2001, sete anos antes de sua morte, em 15/09/2008), Roger Waters, Nick Mason, Roy Harper, Brian Humphries (engenheiro de som do trabalho), Nick Kent (na época jornalista da NME e autor de uma crítica dura e agressiva a uma apresentação da banda, que teve um grande impacto junto aos músicos), Storm Thorgerson (um dos cérebros do Hipgnosis, estúdio que fez várias capas de discos clássicos ao longo dos anos, incluindo diversos trabalhos para o próprio Pink Floyd) e outras figuras que mantinham uma relação próxima à banda durante o período.

Ao passo que The Dark Side of the Moon transformou profundamente a vida dos músicos, Wish You Were Here expôs a fissura entre as opiniões cada vez mais conflitantes de Roger Waters e David Gilmour. A dupla compôs várias faixas em parceria no disco, incluindo as mais do que clássicas “Shine On You Crazy Diamond” e a canção que dá nome ao álbum, mas divergiu enormemente sobre o direcionamento que a música do Pink Floyd deveria seguir dali pra frente. 

O ápice desse desacordo aconteceu, provavelmente, na gravação da canção que abre o lado B de Wish You Were Here, “Have a Cigar”. Nem Waters nem Gilmour conseguiam chegar a um resultado satisfatório em seus vocais, levando a banda ao extremo. Roy Harper, que era chapa dos caras e estava gravando na sala ao lado dentro do amplo estúdio Abbey Road, passou para ver como estavam as coisas e, diante do conflito entre David e Roger, sugeriu que ele mesmo cantasse a letra, o que acabou sendo aceito pela banda. Mesmo assim, muita gente acabou nem percebendo a mudança, já que o timbre de Harper ficou muito parecido com o de Waters.


Mas o ponto principal de Wish You Were Here é Syd Barrett. O fundador e primeira força criativa do Pink Floyd esteve presente em tudo que envolveu a gravação do álbum, mesmo que não fisicamente. A primeira faixa gravada pelo grupo para o disco foi a arrepiante “Shine On You Crazy Diamond”, onde a letra brilhante de Waters fala de forma direta sobre o que aconteceu com Barrett. O depoimento de Richard Wright sobre a situação de Barrett, contando como, do dia para a noite, o músico se apagou e entrou em um limbo mental devido ao consumo excessivo de ácido, é emocionante. O mesmo vale para os diversos momentos em que David Gilmour e Roger Waters falam sobre Barrett. Apesar de terem se passado mais de quarenta anos do acontecimento que literalmente apagou o cérebro de Syd, Gilmour e Waters se mostram claramente abalados com o fim que o parceiro levou, chegando quase às lágrimas ao recordar das suas experiências e amizade com Barrett. Esse ponto faz do documentário uma obra extremamente profunda, pois exterioriza de maneira clara a importância e onipresença que Syd Barrett sempre teve na trajetória do Pink Floyd.

Quando o grupo fala sobre a aparição repentina de Syd no estúdio, olhando os equipamentos sem que ninguém se tocasse de que era ele, é impossível conter a emoção. Barrett apareceu um dia em Abbey Road e ficou lá parado observando tudo com o seu olhar perdido, e só depois de um longo tempo o quarteto percebeu que era ele. O relato dessa situação pelas palavras de Mason, Gilmour e Waters é um dos momentos mais fortes do vídeo.

A estrutura do documentário é bastante semelhante aos itens da série Classic Albums, com o produtor ou engenheiro de som revisitando as fitas originais e tecendo comentários sobre a gravação, enquanto os músicos contam histórias do estúdio e tocam trechos das músicas. Outro ponto alto ocorre quando Storm Thorgerson conta como concebeu a capa de Wish You Were Here, relatando a maneira como foram produzidas as fotos de todo o encarte. 

Entre os extras, o ponto alto é a interpretação de Roger Waters para “Wish You Were Here”. Sozinho em estúdio, acompanhado apenas pelo seu violão, Waters canta de forma cínica e seca, em uma versão que remete ao universo de Bob Dylan.

A História de Wish You Were Here relata uma das fases mais conturbadas e importantes da carreira do Pink Floyd, e mostra como a imensa capacidade criativa da banda foi capaz de superar um momento complicado e fazer surgir um de seus melhores discos. Assistir ao documentário faz a gente entender ainda mais as delicadas engrenagens que mantém unida e fazem uma grande banda seguir em frente. Sem romantismo e expondo suas diferenças, o quarteto revê o seu passado e analisa como ele definiu o seu futuro. Sem meias palavras, sem máscaras e de maneira franca, é possível perceber como, muito mais do que um disco, Wish You Were Here se tornou uma declaração de amor a um amigo perdido e um manifesto da forma como o Pink Floyd acreditava que deveria ser a indústria musical.


terça-feira, 28 de julho de 2015

Quando Miles Davis levou o jazz ao encontro do rock

17:15

Em meados dos anos 1960 existia uma rixa - ainda que indireta - entre o jazz e o rock. Enquanto os músicos de jazz se ressentiam de perder sua estabilidade nas paradas para os novos nomes do rock como os Beatles e os Stones, os rockeiros se irritavam com o nariz empinado com que os jazzistas se colocavam diante deles, chamando-os de instrumentistas de segunda classe ou, na melhor das hipóteses, músicos inexperientes demais. 

Se a partir de 1966/1967 o rock começou a incorporar - ainda que de maneira lenta, é verdade - elementos jazzísticos em sua alquimia, dando o pontapé inicial para o nascimento do que iria ser o rock progressivo, o jazz sofria com uma espécie de bloqueio em incorporar melodias ligadas ao rhythm´n´blues e ao folk, principalmente pelo fato de os artistas mais tradicionais - e parte da crítica especializada no gênero - pensarem que assim estariam dando um atestado público de que o estilo precisava de mudanças. Muitos achavam que essa união seria longa, gradativa e dolorosa.

Porém, coube a Miles Davis, de novo e mais uma vez, o pioneirismo e a ousadia de fazer essa união de forma radical, grandiosa e genial. Davis, cansado da mesmice estética na qual o jazz se encontrava, começou a estudar uma nova abordagem e uma nova forma de se apresentar para o seu público. Em agosto de 1969 reuniu um grupo de talentosíssimos músicos e decidiu unir o jazz a elementos africanos, como o blues, o funk e um certo tempero latino. A partir daí nasceria um dos discos mais influentes, geniais e polêmicos da história da música. Bitches Brew seria responsável pelo nascimento de um novo estilo de jazz, o fusion, que por sua vez se constituiria em uma das principais influências de boa parte do rock progressivo da primeira metade da década de 1970.

Em seus quase 100 minutos, o que vemos é um artista despedaçando e reconstruindo um gênero musical de forma genial e poucas vezes vista. Temos a bombástica "Pharaoh´s Dance" e a antológica faixa-título, altamente introspectiva e com algumas explosões sonoras. Vemos Miles utilizar o talento de seus músicos de forma quase obsessiva, seja pela empolgante "Sanctuary" e, mais especificamente, em "Miles Runs the Voodoo Down", que mescla de forma impressionante o blues, o jazz e uma pitada de música africana quatorze minutos de pura magia sonora. Uma dica: fiquem atentos nessa faixa aos solos do sax de Wayne Shorter e do teclado de Chick Corea, absolutamente arrasadores.

O grande prazer de ouvir o álbum é perceber que Miles, além de só chamar instrumentistas de primeira linha, fazia muito bom uso deles, utilizando suas capacidades muitas vezes à exaustão. Dizem que na faixa "John McLaughlin" o excelente guitarrista cuja canção foi batizada com o seu nome ouvia poucas e boas de Davis por, na opinião de Miles, não estar explorando todo o seu talento.


Ao ser lançado, Bitches Brew causou um estardalhaço, tanto na crítica quanto no público. Ambos ficaram extremamente divididos, classificando o trabalho tanto de inovador e brilhante como de pretensioso e desnecessário. Apesar das controvérsias, ou por causa delas, Bitches Brew alcançou o top 10 norte-americano, vendendo mais de 500 mil cópias, um feito impressionante para um álbum de jazz.

Para o rock progressivo o impacto não foi menor. Muitos músicos de prog rock (Robert Fripp, Robert Wyatt, John Wetton, Bill Brufford, Phil Collins, entre muitos outros) afirmam que Bitches Brew influenciou, e muito, a direção musical que seguiriam posteriormente. Além disso, a própria cena progressiva viria a ser muito influenciada pelo fusion, com bandas incorporando elementos daquela nova e inovadora musicalidade em seu DNA. O King Crimson de 1972-74 e o Soft Machine pós-1970 são os exemplos mais evidentes.

Após Bitches Brew, Miles Davis ficaria ainda mais extremo, explorando em sua totalidade as possibilidades do fusion, lançando os excelentes On the Corner (1972) e Get Up With It (1974), além de fazer o caminho inverso e fazer o rock soar como jazz em A Tribute to Jack Johnson, de 1971. Todos álbuns excelentes, porém sem o mesmo impacto comercial e cultural causado pelo disco de 1969, um verdadeiro divisor de águas em sua carreira.

Woodstock Discos, a loja fundamental para a popularização do heavy metal no Brasil

12:28


Morávamos relativamente perto da Woodstock. Todo sábado reuníamos a turma e rolava uma excursão a pé, uns trinta minutos de caminhada, pra passar o dia inteiro torrando embaixo do sol na frente da loja e gastar as parcas economias de moleque em discos de vinil” .
Andre Matos (Viper, Angra, Shaman e carreira solo)

O Walcir era um cara mais velho e se ligava no perigo que eu e o Max passávamos, por isso abria a loja mais cedo só pra gente comprar. Depois, pegávamos o ônibus, voltávamos pra Belo Horizonte e gravávamos milhões de fitas pra galera”.
Iggor Cavalera (Sepultura e Cavalera Conspiracy)

A Woodstock foi onde tudo começou. Mesmo. Não tenho nenhuma dúvida de que o Walcir foi um dos principais responsáveis pelo crescimento e popularização do heavy metal aqui no Brasil. A Woodstock era o point do metal, onde os metaleiros se reuniam para trocar discos, fitas e fotos”.
Yves Passarel (Viper, Capital Inicial)

Em 1978 abria as portas, na rua José Bonifácio, em São Paulo, uma pequena loja de discos que seria fundamental na história do heavy metal brasileiro. A Woodstock Discos nasceu quando seu proprietário, Walcir Chalas, um rockeiro apaixonado e dedicado colecionador, decidiu colocar toda a sua imensa coleção de LPs à venda. Para isso, abriu uma pequena lojinha e lá colocou seus vinis para negociar, vender e trocar. No início a loja tinha em estoque álbuns de artistas variados, como Beatles, Rolling Stones, Elvis, Sex Pistols e tudo o que rolava naquele últimos anos da década de 1970. Mas uma grande mudança logo viria a acontecer.

O que transformou a Woodstock em uma loja dedicada exclusivamente ao metal foi uma viagem que Walcir fez a Londres, em 1982. Chegando lá, Chalas deu de cara com a explosão da New Wave of British Heavy Metal, com centenas de garotos vestindo camisetas do Iron Maiden, Saxon e Angel Witch. Walcir estava no olho do furacão, e percebeu ali a oportunidade para que a Woodstock se transformasse em algo muito maior que uma simples loja de discos.

Eu nunca tinha estado em nenhum dos grandes movimentos musicais da história, como o punk na Inglaterra ou o flower power em 1967. Quando cheguei em Londres, fiquei bobo”, relembra Walcir. E não era para menos, pois 1982 foi um ano fundamental para o heavy metal. The Number of the Beast apresentava Bruce Dickinson aos fãs do Iron Maiden, que dava os primeiros passos em sua ascensão e começava a fazer história no gênero. Blackout colocava o hard rock cheio de energia e refrãos grudentos do Scorpions no topo das paradas em todo o mundo. For Those About to Rock solidificava a nova encarnação do AC/DC, mostrando que a banda dos irmãos Young ainda tinha muita lenha para queimar. Tudo estava pronto, só faltava alguém para fazer a ligação entre o que rolava lá fora e o sedento público brasileiro. E esse alguém foi Walcir Chalas.


Nosso herói começou a viajar frequentemente para a Inglaterra atrás de discos para trazer para o Brasil. Mantendo parcerias com lojas londrinas, sendo a principal a Shades, cujo proprietário era também integrante do grupo de heavy metal Chariot, Walcir trazia malas e mais malas com os últimos lançamentos direto para a Woodstock, onde os LPs vendiam como água. No auge desse processo, Chalas chegava a ir para Londres a cada dois dias, tamanha a demanda de seu público - antes órfão e abandonado - pelos álbuns de heavy metal. Vale lembrar que naqueles primeiros anos da década de 1980 as grandes gravadoras brasileiras não lançavam discos de metal por aqui, preferindo investir suas fichas em nomes consagrados e com apelo comercial garantido. Por isso, os discos importados pela Woodstock eram como um oásis no meio do deserto.

O cenário mudou consideravelmente com o primeiro Rock in Rio, em 1985. Com cobertura maciça da mídia, o mega festival apresentou o heavy metal a uma nova geração de fãs – esse que vos escreve incluso. Tendo entre suas atrações principais nomes como Iron Maiden, Scorpions, Ozzy Osbourne e Whitesnake, o festival popularizou a música pesada em nosso país. A sintonia foi instantânea: da noite para o dia milhares de adolescentes começaram a deixar seus cabelos crescer, colocaram seus jeans, enfeitaram suas jaquetas com patches, vestiram seus tênis de cano alto e, simultaneamente, colocaram o volume de seus aparelhos de som no talo, devorando LPs de metal com um apetite voraz e infinito.

A Woodstock também mudou. O endereço da José Bonifácio já não dava conta de abrigar o mar de gente que se dirigia para lá nas manhãs de sábado, e Walcir decidiu transferir a loja para um imóvel que havia comprado, mudando para o número 155 da rua Dr. Falcão. Mais amplo, o novo espaço solidificou o nome da Woodstock Discos como a principal loja especializada em heavy metal no Brasil. O Iron Maiden tocou pela primeira vez em nosso país no dia 19 de janeiro de 1985, e no dia 21 de janeiro daquele mesmo ano a Woodstock mostrava a sua nova cara à toda uma geração de metalheads.


As viagens quase diárias para a Inglaterra estavam chegando ao fim. Em uma dessas últimas jornadas, Walcir embarcou de volta para o Brasil com nada mais nada menos que trezentas cópias importadas do clássico Master of Puppets, recém lançado pelo Metallica, e que se esgotaram em apenas uma manhã! Estava claro que era preciso dar o passo seguinte, e, assim, nasceu o selo Woodstock Discos. Um dos primeiros lançamentos foi um álbum do Chariot, banda do principal fornecedor de discos de Walcir, proprietário da loja londrina Shades. Foram prensadas 1.000 cópias, e todas foram vendidas.

O selo Woodstock Discos logo se transformou, ao lado da também novata Rock Brigade Records, na principal gravadora especializada em heavy metal do Brasil. Ao longo dos anos, o selo lançou 86 álbuns das mais variadas vertentes do gênero, abrangendo artistas como Helloween, Motörhead, Manowar, Slayer e Anthrax. Além disso, a loja vendia tanto, mas tanto mesmo, que as grandes gravadoras nacionais começaram a fazer prensagens exclusivas para a Woodstock. Títulos como Blizzard of Ozz de Ozzy, Hell Awaits do Slayer, Rising Force de Yngwie Malmsteen e Tokyo Tapes do Scorpions tiveram 3 mil cópias prensadas cada um, exclusivamente para serem devoradas pelo público da Woodstock.

A importância de Walcir Chalas era tanta que logo ele viu seus horizontes ficarem mais amplos. A rádio 89 o convidou para apresentar o programa Comando Metal, e a MTV o colocou no comando do extinto – e saudoso – Fúria Metal por pouco mais de seis meses. Walcir havia se transformado em um ícone, e com todo o merecimento.

O Sepultura reuniu cinco mil fãs para uma tarde de autógrafos na Woodstock. James Hetfield, durante a primeira passagem do Metallica por nosso país, promovendo o álbum … And Justice for All, quis visitar a loja que vendia os álbuns piratas do grupo que um fã, chamado Edgard Prado, havia mostrado para ele. O resultado? James chegou no banco de trás de um Fiat Uno, e logo foi reconhecido pela multidão de bangers, que ao reconhecerem um de seus maiores ídolos ali na sua frente, quase viraram o carro de cabeça para baixo …


Sem a Woodstock a cena metálica brasileira não seria como a conhecemos hoje. A loja foi, durante quase uma década, o principal ponto de encontro entre os fãs de música pesada do Brasil. Lançou discos, formou ouvintes, influenciou uma geração. Sem a Woodstock o heavy metal não teria a força que tem até hoje em nosso país, com os fãs brasileiros sendo reconhecidos como alguns dos mais apaixonados do mundo.

Alguns números que demonstram o que a Woodstock Discos representou para a popularização do heavy metal brasileiro:

- 500 fãs, em média, todos os sábados, trocando discos, fitas e tudo mais relacionado a seus ídolos

- 700 discos importados trazidos de Londres de uma única vez

- 3.000 cópias Use Your Illusion, do Guns N´Roses, vendidas em um único dia

- 86 álbuns lançados pelo selo Woodstock Discos

- 5.000 pessoas em uma tarde de autógrafos do Sepultura

- 100.000 dólares pagos a indústrias estrangeiras para prensarem os LPs do selo Woodstock, já que, após o Plano Cruzado, as gravadoras nacionais não liberavam mais vinis virgens

Abaixo, os dez títulos mais vendidos do selo Woodstock Discos:

1. Helloween – Walls of Jericho
2. Kreator – Endless Pain
3. Destruction – Eternal Devastation
4. Exciter – Violence & Force
5. Running Wild – Gates of Purgatory
6. Celtic Frost – To Mega Therion
7. Motorhead – Ace of Spades
8. Manowar – Battle Hymns
9. Slayer – Hell Awaits
10. Anthrax – Fistful of Metal

Toda essa história é contada pelo próprio Walcir Chalas e por músicos e fãs no documentário Woodstock - Mais que uma Loja, produzido e dirigido por Wladimyr Cruz. O filme conta com depoimentos de nomes como Max Cavalera, Iggor Cavalera, João Gordo, Andreas Kisser, Gastão Moreira e muitos outros que viveram a época e foram importantes para a popularização do metal aqui no Brasil. Há uma página no Facebook sobre o documentário, onde é possível encontrar mais informação e até mesmo comprar uma cópia do filme.

E, pra fechar, uma matéria do grande Gastão Moreira sobre a Woodstock, assiste aí:

A casa na árvore futurista, o racismo desmontado pela biologia e paisagens norueguesas de cair o queixo

segunda-feira, 27 de julho de 2015

Toda a história do heavy metal, contada em um livro obrigatório

14:56

Desconheço gênero musical mais apaixonante que o heavy metal. A força de suas guitarras conquista novos fãs todos os dias, ao mesmo tempo em que renova os votos de velhos parceiros a todo momento. Suas letras, seja quando contam histórias fantásticas repletas de seres mitológicos ou quando mergulham no lado mais escuro do ser humano, são relatos intensos e hipnotizantes. Sua mítica, suas lendas, seus ícones e sua tradição foram construídos através do apoio e da participação ativa dos fãs, personagens de importância fundamental em sua história.

O jornalista Ian Christe, nascido em 1970 na Suíça, entende tudo isso. Fanático por metal, Christe construiu uma sólida carreira na mídia especializada, tendo seus textos publicados em revistas como Kerrang!, Spin, Guitar World e outras, além de matérias em publicações como Wired e Chicago Reader. Como todo fã de metal, Christe se aventurou também pela música com a banda Dark Noerd the Beholder, que aparece na trilha do filme Gummo, lançado em 1997, e em alguns outros projetos.

Profundo conhecedor do gênero, pesquisador e colecionador do estilo, Ian Christe lançou em 2003 o livro Sound of the Beast: The Complete Headbanging History of Heavy Metal, que ganhou também uma muito bem-vinda edição brasileira. Já traduzida para onze línguas, aqui em nosso país a obra ganhou o título de Heavy Metal: A História Completa – e faz jus a essa expressão.

As 480 páginas passam a limpo a trajetória da música pesada, desde o seu início até os dias atuais. Christe aponta - de maneira correta, por sinal – o lançamento do primeiro álbum do Black Sabbath, em 13 de fevereiro de 1970, como o marco zero do estilo, e seu texto parte desse ponto. É nítida a paixão do escritor pelo heavy metal, e isso transparece claramente em suas palavras, dando um ar épico, mágico e fantasioso à cada página.

Organizado em vinte capítulos (mais prólogo e epílogo), Heavy Metal: A História Completa é uma obra extremamente didática, que explica detalhadamente o surgimento do metal e de seus inúmeros subgêneros, e em como cada fato de sua história influenciou os músicos e os fãs, em um ciclo infinito que leva a novos caminhos sonoros e cria, consequentemente, novas linguagens musicais.


A parte dedicada aos primeiros anos do heavy metal é particularmente elucidativa, citando nominalmente os artistas que definiram as bases do estilo e que, muitas vezes, acabam sendo ignorados por ouvintes mais novos. Ir atrás de bandas como Flower Travellin' Band, Blue Oyster Cult, Captain Beyond, Bang e outras – além das obrigatórias Deep Purple e Led Zeppelin – leva ao conhecimento de ótimos discos muitas vezes relegados a um plano secundário, e torna o entendimento da evolução do gênero muito mais fácil e eficaz para o ouvinte.

A clareza do texto de Christe deixa óbvia a compreensão do quanto as bandas da New Wave of British Heavy Metal, ao afastarem-se das influências de blues tão evidentes nos pioneiros do metal (como o próprio Black Sabbath) e substituí-las pelas harmonias e melodias de grupos como Wishbone Ash e Thin Lizzy, deram ao gênero uma de suas características mais marcantes: o duelo faiscante de guitarras inventivas e inspiradas, traduzido em linhas melódicas volumosas e grudentas.

O embate entre as bandas glam de Los Angeles e a cena thrash da Bay Area é outro momento de destaque. Ian Christe reconhece a devida importância histórica de grupos como Quiet Riot, Mötley Crüe, Dokken, Ratt e outros, responsáveis não apenas por levar o som pesado para as massas ao alcançarem  vendas gigantescas e tornarem-se figuras habituais nas paradas da Billboard, mas também por viabilizarem o formato da MTV, já que a emissora cresceu e se consolidou com uma programação baseada, em sua grande maioria, em vídeos desses grupos.

Do outro lado da história, o enorme sucesso das bandas glam alimentou uma forte reação na vizinha San Francisco, onde grupos influenciados por Venom, Motörhead e pela NWOBHM iniciaram o desenvolvimento de um som mais agressivo aliado a uma imagem que era a antítese do visual glam – ao invés de roupas colantes e multicoloridas, as bandas da Bay Area vestiam-se com o trio básico tênis-jeans-camiseta. Liderados pelo Metallica, esses nomes fizeram nascer um dos mais sólidos, influentes e duradouros estilos do metal, o thrash.

O livro também prova que a queda de popularidade das bandas glam no início da década de 1990, ao contrário do conceito que é vendido de maneira equivocada por grande parte da mídia especializada brasileira, não foi causada pelo surgimento do grunge, mas sim pelos excessos - tanto estéticos quanto comportamentais – das próprias bandas, que acabaram esgotando e estagnando a cena. Esse fator, aliado à sólida reputação conquistada pelo Metallica e a posterior renovação e explosão comercial do Black Album, colocou a pá de cal que enterrou a turma de Los Angeles e maioria dos nomes clássicos do heavy metal. Qualquer movimento que viesse depois seria adotado pela mídia - calhou de ser o grunge, mas poderia ser qualquer outro.

A polêmica cena black metal norueguesa do início dos anos 1990 rende um dos melhores capítulos da obra. Christe contextualiza a relação dos noruegueses com a religião, e explica como o Cristianismo foi imposto de forma arbitrária no país há mais de mil anos atrás, gerando um descontentamento histórico e onipresente em toda a população. As bandas de black metal norueguesas, que foram responsáveis por discos fantásticos que influenciaram profundamente o estilo, também foram personagens de ações polêmicas como a queima de igrejas históricas, ataques a homossexuais e diversas iniciativas controversas que alcançaram o seu auge em agosto de 1993 com o assassinato de Euronymous, líder e guitarrista do Mayhem, por seu amigo e ex-colega de banda, Varg Vikernes. Todos esses acontecimentos são contados com clareza por Christe, em um dos capítulos mais esclarecedores de Heavy Metal: A História Completa.


Dois aspectos do texto da obra merecem uma crítica. O primeiro é o foco exageradamente centrado no Metallica em detrimento a outras bandas fundamentais do som pesado. É claro que o grupo de James Hetfield tem importância seminal no gênero, mas em alguns trechos o destaque é tanto que temos a impressão de estar lendo uma biografia da banda. Questionei este fato em uma entrevista que fiz com Christe em 2010, e ele argumentou afirmando que "como o livro aborda centenas de bandas eu precisava de um personagem central para usar como ponto de referência, e o Metallica foi isso. Pelo tempo que a banda possui de carreira, eles estiveram envolvidos na evolução do metal de maneira mais interessante que o Iron Maiden e o Judas Priest. Nos últimos dez anos o Metallica não contribuiu muito para o avanço do estilo, mas talvez eles leiam o livro e concluam que seu trabalho já foi feito! Em todo o caso, a influência do Metallica afetou toda a cena, do reconhecimento do Diamond Head ao fato de o Carcass ter assinado com uma grande gravadora, então a banda simplesmente não parava de aparecer em cada entrevista que eu fiz para o livro”. 

O outro é o fato de Christe ignorar totalmente alguns subgêneros e nomes importantes na história do som pesado. Toda a cena prog metal não é citada no livro, o mesmo acontecendo com os grupos de power metal. Independente de gosto pessoal, uma obra que ostenta o subtítulo The Complete Headbanging History of Heavy Metal não pode cometer um deslize como esse.

Ian Christe também faz inúmeras listas durante todo o livro, apontando os discos mais representativos de praticamente todos estilos do metal. Essas listas acabam servindo como guias para quem quer conhecer de maneira mais profunda cada um destes subgêneros, e possuem grande valia para os leitores.

Heavy Metal: A História Completa é um livro fundamental para qualquer fã de metal. A trajetória do gênero musical que tanto amamos é contada nos mínimos detalhes, em uma leitura extremamente prazerosa para todo fã de música pesada. Enfim, um livro recomendadíssimo, e que documenta o impacto e a força que o heavy metal teve - e continua tendo - na sociedade.

Para quem quer saber mais a respeito do trabalho de Christe, vale seguir de perto o catálogo da Bazillion Points, editora que ele comanda e que lançou vários livros excelentes explorando o universo metálico. 

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