sexta-feira, 24 de julho de 2015

A trilha mais rock and roll da história do cinema

16:46

Um filme absolutamente rock and roll só poderia ter uma trilha sonora imperdível. É o caso de Easy Rider, clássico do cinema dirigido pelo ator Dennis Hopper e que chegou aos cinemas em 14 de julho de 1969. A história dos dois motoqueiros que cruzam os Estados Unidos vivendo histórias surreais e encontrando pessoas mais singulares ainda tem uma das soundtracks mais famosas do rock.

A história por trás disso tudo é deliciosa. O editor Donn Cambern, que também era um grande colecionador de discos, quando estava montando o filme pesquisava músicas em sua própria coleção para ilustrar as cenas da película. Muitas das escolhas iniciais de Cambern acabaram sendo usadas na versão final do filme, gerando um custo de licenciamento superior a 1 milhão de dólares - mais do que o triplo do orçamento total do próprio filme, que custou apenas US$ 360 mil.

Quem também teve um papel importante nesse aspecto foi o trio Crosby, Stills e Nash. Hopper era amigo pessoal de David Crosby, Stephen Stills e Graham Nash e apresentou o corte inicial da película para os músicos, que ficaram encantados com o que viram - e ouviram -, e garantiram ao diretor que ele não conseguiria fazer algo melhor do que já estava ali. A opinião dos três fez com que Dennis Hopper tivesse ainda mais certeza de que estava no caminho certo, tanto no aspecto cinematográfico quanto em relação à trilha.

Bob Dylan, já naquela época um dos maiores e mais respeitados músicos e compositores do rock, foi convidado para participar, mas não se empolgou muito com a ideia. Para não deixar os produtores na mão, Dylan permitiu que uma de suas canções, “It’s Alright, Ma (I’m Only Bleeding)”, fosse utilizada na obra, porém em uma nova gravação de Roger McGuinn, dos Byrds. Além disso, escreveu o primeiro verso de uma letra até então inédita e deu aos produtores com a seguinte recomendação: “Entreguem isso a Roger, ele saberá o que fazer”. O rascunho de Dylan acabou se transformando em “Ballad of Easy Rider” pelas mãos de McGuinn, uma das canções mais emblemáticas daquele final da década de 1960.


O LP com a trilha do filme chegou às lojas em agosto de 1969 pela Dunhill, selo da Reprise Records, subsidiária da Warner. Com apenas dez faixas, sendo cinco de cada lado, o disco é o retrato literal de uma época. Todas as canções aparecem no álbum na mesma ordem em que surgem na tela, tornando a experiência de ouvir a bolacha ainda mais forte e próxima do filme de Dennis Hopper.

O Steppenwolf dá o pontapé inicial com duas composições que se tornariam eternas. “The Pusher” é um blues nada convencional, cuja letra classifica como traficantes de drogas apenas aqueles que vendem maconha e como “empurradores”- o “pusher” do título - aqueles que comercializam heroína, “um monstro que não se importa se o usuário vai viver ou morrer”. A sequência se dá com o hino “Born to Be Wild”, que a partir da sua inclusão em Easy Rider se transformou em um dos maiores clássicos do rock, com literalmente milhares de versões gravadas ao longo das décadas. Uma das músicas mais famosas da história, “Born to Be Wild” virou sinônimo de liberdade e passou a ser associada com a cultura do motociclismo, relação essa que só se intensificou no decorrer dos anos. Além disso, ajudou a popularizar o termo heavy metal através de uma das frases da letra, que continha a expressão “heavy metal thunder”.

O play segue com a curiosa versão de Smith para “The Weight”, faixa originalmente gravada pela The Band e que, por motivos contratuais, não pôde ser incluída no disco. No entanto, é a gravação original da própria The Band que aparece no filme. Por essa razão, a releitura de Smith é propositalmente bastante similar à original. “Wasn’t Born to Follow”, composição lançada pelo The Byrds em The Notorious Byrd Brothers (1968), comparece em seguida, assim como a hilária “If You Want to Be a Bird”, do The Holy Modal Rounders, que fecha o lado A do vinil.

Virando o disco temos o Fraternity of Man com a ótima “Don’t Bogart Me”, um country sensacional típico de um boteco de beira de estrada norte-americano. A psicodélica “If 6 Was 9”, faixa de Axis: Bold as Love, é a contribuição de Jimi Hendrix para a trilha, e acentua o clima multi-colorido e entorpecido. Essa sensação, é claro, fica ainda mais clara com “Kyrie Elelson (Mass in F Minor)”, do Electric Prunes, cujo destaque são os celestiais vocais.

O álbum se encerra com uma dose dupla de Roger McGuinn: as excelentes “It’s Alright, Ma (I’m Only Bleeding)” e “Ballad of Easy Rider”, acústicas e paridas a partir da mente privilegiada de Bob Dylan. Um fechamento perfeito para uma das jornadas sonoras mais fortes do cinema.

Duas faixas que aparecem em Easy Rider acabaram ficando de fora da trilha por questões contratuais. São elas “Let’s Turkey Trot”, da cantora norte-americana Little Eva, e “Flash, Bam, Pow”, do Electric Flag.



O LP se tornou um item cobiçado pelos colecionadores, não tanto pela sua raridade - afinal, devido ao sucesso alcançado o disco foi relançado diversas vezes ao longo dos anos e sempre foi relativamente fácil de ser encontrado nas lojas -, mas sim pela qualidade de suas faixas e pelo significado histórico que a trilha possui. 

Em 2004, a Warner colocou no mercado uma deluxe edition dupla, com um segundo CD intitulado Something in the Air 1967 to 1969 trazendo 19 faixas que retratam o período mas não estão, necessariamente, no filme, incluindo a versão original de “The Weight”, da The Band, e músicas de grupos como Jefferson Airplane, The Who, Procol Harum, Blue Cheer e outros. Essa edição ainda está em catálogo.

Seja pelo aspecto histórico ou pela qualidade de suas faixas, a trilha de Easy Rider é um disco fundamental em qualquer coleção de rock. Suas faixas mais conhecidas se transformaram em hinos, e as composições menos famosas são verdadeiras pérolas que retraram com precisão o espírito de uma época.  

Se você ainda não tem, já passou da hora de adquirir uma cópia.

quinta-feira, 23 de julho de 2015

Trapeze,o trio que tinha tudo pra voar alto (mas acabou esquecido)

17:31

Quando Glenn Hughes ingressou no Deep Purple em 1973, seu nome ficou, de imediato, famoso em todo o mundo. Mas, ao contrário de seu novo companheiro David Coverdale, que antes de responder a um anúncio da Melody Maker e passar a fazer parte do Purple tinha apenas experiência com grupos desconhecidos, Hughes não era nenhum novato. O baixista e vocalista, nascido em 21 de agosto de 1952 na cidade inglesa da Cannock, já havia impressionado meio mundo com a sua passagem pelo Trapeze, uma das melhores bandas de hard rock da primeira metade da década de 1970.

O Trapeze surgiu em março de 1969 na cidade de Wolverhampton, Inglaterra. Seus fundadores foram o vocalista e trompetista John Jones e o guitarrista e tecladista Terry Rowley, responsável pelo nome do conjunto. Os dois haviam se conhecido em uma banda chamada The Montanas. A dupla foi atrás de músicos com pensamentos parecidos com os seus, e os encontrou nas figuras do guitarrista Mel Galley e do baterista Dave Holland, além de Glenn Hughes.

Após vários ensaios e um número cada vez maior de shows pelos clubes londrinos, o então quinteto assinou com a Threshold Records, criada pelo Moody Blues inicialmente para lançar apenas os álbuns do grupo e os trabalhos solos de seus integrantes, mas que acabou se transformando em um selo com catálogo próprio, subsidiado à gravadora Decca.

Em 1970 chegou às lojas o primeiro play do grupo, tendo com título apenas o nome da banda. A produção foi de John Lodge, baixista do Moody Blues. O álbum traz um hard rock calcado no blues, e apesar de ser um bom disco, passou meio batido pelo público. Logo após o lançamento, John Jones e Terry Rowley saíram fora, retornando para o Montanas, onde permaneceriam até 1978.


Reduzido a um trio, o Trapeze voltou ao estúdio para gravar o seu segundo álbum. Lançado em novembro de 1970, Medusa é muito superior ao primeiro trabalho. Novamente produzido por Lodge, o disco apresenta um hard rock coeso e afiado, com passagens instrumentais requintadas e de muito bom gosto, adornadas pela voz singular de Glenn Hughes, um dos maiores vocalistas do hard rock.

Medusa abre com "Black Cloud", faixa que apresenta uma das características marcantes do Trapeze: a alternância entre momentos mais pesados com outros mais calmos, levando o ouvinte por estradas muito bem construídas, que desembocam em trechos onde o pau como solto. Ótimo começo! 

Na sequência temos um dos ápices da carreira do trio. "Jury" começa como uma balada, onde os destaques são a interpretação de Hughes e a guitarra de Galley. Após essa breve e excelente introdução mais lenta, a faixa cai em um hard clássico, mudança feita pelo antológico riff de guitarra de Mel Galley, que Hughes e Dave Holland seguem com precisão cirúrgica. Essa segunda parte da canção evolui, com Hughes cantando muito, enquanto Galley rege os trechos instrumentais. E, no final, tudo volta para o começo, como uma viagem em loop em uma máquina do tempo. Sensacional!

O tempero funk, outra das características do Trapeze, aparece em "Your Love is Alright" e "Makes You Wanna Cry", com o embalo sendo apimentado com generosas dose de peso. Já o rock bate ponto forte em "Touch My Life", uma das melhores faixas do disco, que conta com um dos grandes riffs de toda a carreira de Galley. Mais uma vez percebe-se a variação entre momentos mais calmos e outros mais explosivos, tornando a canção muito interessante.


Uma das mais belas composições gravadas nos anos setenta vem a seguir. "Seafull" é uma espécie de blues carregado com ainda mais emoção e sentimento, onde Hughes canta como se fosse um anjo caído. As linhas vocais criadas pelo baixista e vocalista são tão lindas que chegam a doer. A parte instrumental mostra toda a sensibilidade do trio, conduzindo o ouvinte por uma odisseia regada com imagens do passado e sonhos de um futuro melhor.

O disco fecha com sua faixa-título, uma canção que não poderia ter nascido em outra época que não naquele trecho final dos anos sessenta e início dos setenta. O belo arranjo mostra o quanto o grupo influenciou todo o hard subsequente. Os trechos acústicos tornam a canção ainda mais bela, revelando todo o poder da voz crua de Hughes. Um encerramento perfeito para um álbum de tão alto nível como Medusa.

Apesar da ótima qualidade do trabalho, e também de seu sucessor, o excelente You Are the Music ... We´re Just the Band (1972), a repercussão continuou muito pequena. Ainda que ambos tenham recebido boas críticas, em relação às vendas, que é onde a coisa pega, os resultados não foram satisfatórios. Não avistando um futuro muito animador, e com um irrecusável convite para entrar no Deep Purple na manga, Hughes abandonou o barco em 1973 e foi fazer história ao lado de Coverdale, Blackmore, Lord e Paice, gravando dois álbuns muito bons com o Purple - Burn e Stormbringer, ambos de 1974, além do injustiçado Come Taste the Band, lançado em 1975 já com Tommy Bolin no lugar de Ritchie Blackmore.


A entrada de Glenn Hughes no Deep Purple chamou a atenção do público para os três discos do Trapeze, até então praticamente ignorados. As vendas dos álbuns cresceram, bem como a reputação do grupo. Buscando capitalizar em cima disso, foi lançada em 1974 a coletânea The Final Swing, que vinha com um bem visível "featuring Glenn Hughes" na capa, para não deixar dúvidas de que se tratava da antiga banda do então baixista do Deep Purple. O disco traz faixas de Trapeze, Medusa e You Are the Music ... We´re Just the Band, além de duas canções inéditas com Hughes, "Good Love" e "Dat´s It". Como curiosidade, vale dizer que essa última já era conhecida do público, pois vinha sendo executada nos shows durante os dois últimos anos de Hughes no Trapeze, sendo inclusive um dos momentos altos das apresentações da banda.

Em 1974 Galley e Holland anunciaram a entrada do guitarrista Rob Kendrick e do baixista Pete Wright, e lançaram o bom Hot Wire, onde os vocais principais foram assumidos por Mel Galley. Galley manteria a banda ativa até 1979, quando o Trapeze encerrou as suas atividades.

Dave Holland foi para o Judas Priest, onde permaneceu por dez anos, vivendo a fase de ouro da banda na década de 1980. Mel Galley reaproximou-se de Hughes após o primeiro fim do Deep Purple, em 1976, e tocou inclusive no primeiro disco solo do baixista e vocalista, Play Me Out, lançado em 1977. Após isso, ingressou no Whitesnake de David Coverdale em 1982, onde gravou os álbuns Saints & Sinners (1982) e Slide It In (1984).

Falando nisso, vale dizer que existem duas mixagens diferentes de Slide It In, cada uma com um tracklist diferente, uma lançada no mercado inglês e outra no norte-americano. As diferenças entre as duas? A primeira apresenta uma sonoridade mais crua, na linha do que a banda havia feito no disco anterior, Saints & Sinners, enquanto que a norte-americana é mais super produzida e tem a inclusão da guitarra do ex-Thin Lizzy John Sykes, além de as partes de baixo terem sido regravadas por Neil Murray - na versão inglesa, o instrumento foi executado por Colin Hodgkikson.

Aliás, está em Slide It In a composição mais conhecida da carreira de Mel Galley, o mega hit "Love Ain't No Stranger", que o guitarrista escreveu em parceria com Coverdale. Galley iria participar da turnê do álbum, mas sofreu um acidente que danificou alguns nervos de seu braço, ficando impossibilitado de tocar por um tempo e, consequentemente, tendo que sair do grupo. Galley ainda montaria o super grupo Phenomena, com quem gravou quatro discos - Phenomena (1985), Phenomena II - Dream Runner (1987), Phenomena III - Inner Vision (1993) e Psycho Fantasy (2006).


Já Glenn Hughes, após a sua saída do Deep Purple em 1976, gravou o citado Play Me Out com a participação de Galley e Holland, além de inúmeros outros músicos, e fez participações especiais em diversos discos dos mais variados artistas até a metade dos anos oitenta. Alguns exemplos são as suas participações nos álbuns Teaser (1975) de Tommy Bolin, Makin' Magic (1977) de Pat Travers, Lucky for Some (1981) da Climax Blues Band, Midnight Madness (1983) do Night Ranger, Where Angels Fear to Tread (1983) do Heaven e Run For Cover (1985), de Gary Moore. Além disso, participou dos dois primeiros discos do Phenomena - e também do quarto, lançado em 2006 -, e ainda montou o projeto Hughes/Thrall com o guitarrista Pat Thrall, com quem gravou um LP em 1982.

Em 1986 Hughes ingressou no Black Sabbath, onde gravou os vocais do álbum Seventh Star, lançado naquele ano. O vocalista chegou a sair em turnê com a banda, mas o estado avançado de seu vício em cocaína e álcool acabou fazendo com que se desligasse do grupo de Tony Iommi.

Em 1991 a formação clássica do Trapeze se reuniu novamente. Glenn Hughes, Mel Galley e Dave Holland saíram em turnê, com a adição do tecladista Geoff Downes (ex-Yes e Asia), para um pequeno giro, que rendeu o ao vivo Welcome to the Real World, lançado em 1993 pela Purple Records. Outra reunião ocorreu em 1994, quando o trio tocou em um show tributo ao vocalista Ray Gillen (Badlands, que teve uma passagem pelo Black Sabbath justamente substituindo Hughes na turnê de Seventh Star), que morreu de AIDS em 1 de dezembro de 1993.

Em 1 de julho de 2008 Mel Galley faleceu, vítima de um câncer no esôfago. Seus últimos meses foram acompanhados com agonia por fãs de todo o mundo, já que o guitarrista anunciou a doença através de seu site, causando comoção entre admiradores e músicos. David Coverdale, Glenn Hughes e outros artistas vieram a público prestar solidariedade a Galley, mas, infelizmente, o estado avançado do câncer fez com que não fosse possível outra atitude que não apenas a espera pelo inevitável fim.


Já Dave Holland, após sair do Judas Priest, além das citadas reuniões do Trapeze, tocou também com o The Screaming Jets, produziu algumas bandas, tocou com Al Atkins (primeiro vocalista do Judas Priest) e participou de sessões de gravação que reuniram Glenn Hughes, Tony Iommi e o tecladista Don Airey (atualmente no Deep Purple). Holland passou também a ministrar clínicas e a dar lições de bateria. Foi em uma dessas aulas, para um garoto de 17 anos com problemas mentais, que Holland foi acusado pelos pais do menino de tê-lo assediado sexualmente. O baterista foi preso e levado a julgamento, onde recebeu uma pena de oito anos de prisão, que está atualmente cumprindo. Todo esse processo fez com que Tony Iommi substituísse as partes gravadas por Holland no álbum The 1996 DEP Sessions, por não querer ter o seu nome associado a alguém envolvido com crimes sexuais.

Glenn Hughes engatou uma sólida carreira solo, onde já lançou mais de vinte discos. Em seus álbuns solo, Hughes desenvolveu uma sonoridade onde mescla duas de suas maiores paixões: o funk e o hard rock. Entre seus trabalhos, merecem destaque a estreia Play Me Out (1977), From Now On ... (1994), o ao vivo Burning Japan Live (1994) - com sons do Deep Purple e do Trapeze -, a homenagem ao chapa Tommy Bolin em A Tribute to Tommy Bolin (1997), Building the Machine (2001), Soul Mover (2005) e o elogiado First Underground Nuclear Kitchen, lançado em 2008. O baixista também montou o Black Country Communion ao lado de Joe Bonamassa, Derek Sherinian e Jason Bonham, e gravou três discos com o quarteto - Black Country Communion (2010), Black Country Communion 2 (2011) e Afterglow (2012).

Quem curte um hard rock bem feito, com ricas passagens instrumentais e um vocal muito acima da média, irá encontrar no Trapeze uma ótima banda, e em Medusa uma jóia esquecida. Ouça no volume máximo e comprove!

A sublime provocação de Tommy Bolin

12:18

Gravado antes de Tommy Bolin assumir o posto de Ritchie Blackmore no Deep Purple, Teaser é um disco brilhante, obrigatório para todo e qualquer apreciador de uma guitarra bem tocada. 

Bolin exibe toda a sua técnica e o seu talento como compositor nas nove faixas do disco. Teaser começa a nos conquistar já pela faixa de abertura, "The Grind", dona de um groove contagiante. Com bom gosto e classe acima da média, Tommy mostra, de forma clara e inquestionável, o porque de ter sido escolhido como o substituto do até então insubstituível Blackmore.

"Homeward Strut" é uma faixa instrumental repleta de balanço, enquanto os pouco mais de cinco minutos de "Dreamer" e a bela "Savannah Woman" mantém o trabalho no mais alto nível. Outros pontos altos são as ótimas "Teaser", "People, People" e "Wild Dogs", exemplos extremamente bem acabados da capacidade de Bolin como compositor e de sua criatividade como instrumentista.

Somos brindados ainda com mais uma faixa instrumental, "Marching Powder", bastante influenciada pela fase jazz rock de Jeff Beck, e que conta com a participação do tecladista Jan Hammer, da Mahavishnu Orchestra.

Teaser se encerra com "Lotus", uma excelente composição que inicia suavemente e aos poucos vai ganhando elementos introduzidos por Bolin, que toca e sola de maneira primorosa, além de cantar de forma apaixonada, fechando o disco com chave de ouro.



Com grande competência e talento, Tommy Bolin trilhou diversos caminhos musicais em sua breve carreira, seja em seus álbuns solo ou ao lado do James Gang, Moxy e Deep Purple, e também em participações mais que especiais em trabalhos clássicos como Spectrum (1973), de Billy Cobham, e Mind Transplant (1974), de Alphonse Mouzon.

Sua música é a prova de sua imensa capacidade criativa e talento. Sua morte, em 4 de dezembro de 1976 por overdose de heroína, deixou inacabada uma grande trajetória que certamente nos brindaria ainda com vários grandes discos.

Ouvir um álbum com Teaser nos causa duas reações: a primeira é imaginar para quais caminhos a música de Tommy Bolin seguiria. E a segunda é agradecer a esse músico único, que mesmo com uma breve e atribulada carreira nos presenteou com trabalhos sublimes como esse.

A vida antes do Photoshop, a singularidade da Holanda e o heavy metal em maio

quarta-feira, 22 de julho de 2015

O disco que motivou o uso do termo “heavy metal” como definição de um gênero musical

16:44

Uma da bandas mais cultuadas do hard rock setentista, o Sir Lord Baltimore foi formado em 1968 no bairro do Brooklyn, em Nova York, pelo vocalista e baterista John Garner, pelo guitarrista Louis Dambra e pelo baixista Gary Justin. O trio se conheceu na escola, e começou a ensaiar com afinco naquele mesmo ano.

As coisas começaram a acontecer para o Sir Lord Baltimore quando a banda conheceu Mike Appel, empresário iniciante e que, alguns anos mais tarde, se tornaria manager de Bruce Springsteen. Appel deu ao grupo o seu nome definitivo, além de ser o co-autor de várias faixas e um dos produtores do disco de estreia do grupo.

Batizado de Kingdom Come, o álbum foi gravado nos estúdios Vantone, en Nova Jersey, e foi produzido por Mike Appel e Jim Cretecos. A mixagem final foi realizada pelo lendário Eddie Kramer no Electric Ladyland Studios, cujo dono era um tal de Jimi Hendrix. Diz a lenda que durante o processo de mixagem os integrantes do Pink Floyd teriam ouvido o disco e ficado muito impressionados com a música do Sir Lord Baltimore.

Kingdom Come chegou às lojas no final de 1970 trazendo um hard pesadíssimo, repleto de grandes riffs. O baixo de Gary Justin coloca ainda mais peso às músicas, enquanto a bateria de John Garner imprime um ritmo tribal ao proto heavy do grupo. O som lembra o Black Sabbath do início, com algumas músicas mais arrastadas e carregadas com uma atmosfera sombria e aterrorizante. O crítico Mike Saunders, da Creem Magazine, escreveu um review bastante favorável ao grupo, que se tornou histórico por ser a primeira vez em que o termo “heavy metal” foi utilizado como referência a um estilo musical. Só por aí dá pra sentir a influência e a importância do Sir Lord Baltimore.

Entre as dez faixas destaco a que dá nome ao trabalho, “Hell Hound”, “Helium Head”, “Ain´t Got Hung on You”, “Master Heartache” e “Lady of Fire”. Além do conteúdo musical de primeira, Kingdom Come tem como destaque a belíssima capa, que traz a pintura de um fantasmagórico navio.

Pra fechar, vale dizer que a banda voltou à ativa e inclusive lançou um álbum inédito em 2006, batizado como Sir Lord Baltimore III Raw, contendo músicas que haviam sido compostas originalmente para um disco que seria lançado em 1976, mas que acabou abortado com o fim das atividades do grupo.

Historicamente, o Sir Lord Baltimore, mesmo não sendo tão popular quanto nomes como Black Sabbath, Led Zeppelin e Deep Purple, possui importância similar para o heavy metal tanto quanto estes grupos e outros pioneiros da pauleira, o que já seria motivo mais do que suficiente para o grupo ter um reconhecimento incontestável mundo afora, o que, infelizmente, não ocorreu.

Uma agradável má companhia

12:27

Após o encerramento das atividades do Free, poucos acreditavam que Paul Rodgers e Simon Kirke poderiam lançar algo tão bom em tão pouco tempo. Claro que estamos falando de músicos excepcionais, especialmente Rodgers, mas o processo que leva ao encerramento das atividades de uma banda é desgastante, cansativo e avassalador, principalmente em um caso como o do Free, onde Rodgers, Kirke e Andy Fraser viram a amizade entre os integrantes ser devastada pela dependência química de Paul Kossoff.

Na ressaca de todo esse processo surgiu o Bad Company. Do Free vieram Rodgers e Kirke. Do Mott the Hoople, o guitarrista Mick Ralphs, enquanto o King Crimson havia sido a banda anterior do baixista Boz Burrell. Essa formação fez com que a imprensa logo os rotulasse como um super grupo, característica que ficou ainda mais forte após Peter Grant, o lendário empresário do Led Zeppelin, anunciar que seria o manager do grupo. Essa ponte entre as duas bandas fez com que o Bad Company fosse o primeiro contratado e lançasse o primeiro disco do Swan Song, o selo fundado por Page, Plant e companhia.

Lançado em 15 de junho de 1974, Bad Company foi um sucesso tremendo, com o álbum atingindo o primeiro posto nos charts da Billboard. Os singles do álbum também fizeram bonito, com “Can´t Get Enough” alcançando a posição de número cinco, e “Movin’ On” a décima-nona.

Realmente, as oito faixas que formam o álbum apresentam uma qualidade indiscutível. A já citada “Can´t Get Enough” é uma pedrada hard guiada pela guitarra de Ralphs. “Rock Steady” é um hard blues onde toda a banda brilha, com destaque para Ralphs e para a magnífica interpretação de Rodgers. A balada “Ready for Love” se transformou em um dos maiores clássicos do grupo, e é de uma simplicidade tocante.


A música que dá nome ao grupo e ao disco, “Bad Company”, é uma densa balada blues que contém uma das melhores interpretações de toda a carreira de Paul Rodgers, um vocalista que deveria ser muito mais reconhecido do que é. Marca registrada da banda, até hoje é um dos pontos altos dos shows. “The Way I Choose” revela momentos lindos em suas linhas vocais e em seu arranjo, emocionando todo e qualquer apreciador de música. O álbum fecha com o single “Movin' On”, que traz enormes influências do Free, e a clássica “Seagull”, uma das mais emblemáticas composições do grupo.

Após a estreia, o Bad Company lançaria mais quatro ótimos discos - Straight Shooter em 1975, Run With the Pack em 1976, Burnin' Sky em 1977 e Desolation Angels em 1979, sendo que os três primeiros são fundamentais em qualquer coleção de respeito.

Paul Rodgers sairia em 1982, sendo substituído por Brian Howe (da banda de Ted Nugent), e durante a sua ausência o Bad Company enveredou por caminhos sonoros discutíveis, deixando de lado o blues rock e o hard que o haviam consagrado e investindo em uma sonoridade mais pop, que visava exclusivamente o crescimento do grupo no mercado norte-americano. Rodgers voltou em 1998, e desde então o Bad Company tem realizado shows frequentes, mantendo vivo o seu legado como um dos mais importantes grupos de hard rock dos anos 1970.

A super valorização dos jovens jogadores ingleses, os erros de roteiro e continuidade de Game of Thrones e os segredos do novo álbum do Iron Maiden

terça-feira, 21 de julho de 2015

A épica batalha pela alma, e pelos lucros, dos Beatles

18:56

Existem inúmeros livros sobre os Beatles. Centenas, milhares de obras já analisaram a carreira da banda e de seus integrantes, partindo dos mais variados pontos e chegando às mais diversas conclusões. No entanto, nenhum é como A Batalha Pela Alma dos Beatles (Your Never Give Me Your Money: The Beatles After the Breakup, no título original), escrito pelo jornalista inglês Peter Doggett. O autor conta, através de uma pesquisa extensa e com grande riqueza de detalhes, a colossal disputa jurídica iniciada após o anúncio do fim do grupo e que envolveu John Lennon, Paul McCartney, George Harrison, Ringo Starr e praticamente qualquer pessoa que tenha cruzado o caminho do quarteto.

Baseado em inúmeras entrevistas com os quatro e com dezenas de pessoas que tiveram relacionamento com a banda e seus músicos (assistentes, familiares, roadies, jornalistas, amigos, ...), A Batalha Pela Alma dos Beatles é um livro notável ao lançar inúmeros focos de luz sobre os bastidores de um conflito épico e quase desconhecido do público em geral.

Traçando perfis profundos de Lennon, McCartney, Harrison e Starr, além de Yoko Ono, Linda McCartney, Brian Epstein (primeiro empresário), Allen Klein (substituto de Epstein e segundo empresário do grupo), Lee e John Eastman (respectivamente sogro e cunhado de Paul, e também responsáveis por seus negócios) e os funcionários mais próximos da banda, Doggett revela como os Beatles foram se dissolvendo lentamente desde a morte de Epstein em 1967, passando por longos confrontos jurídicos durante toda a década de 1970 e 1980, processo esse que resultou em rusgas e diferenças profundas e praticamente intransponíveis entre John, Paul, George e Ringo, além de uma contenda aparentemente infinita entre os clãs Lennon e McCartney.



A leitura proporciona um mergulho profundo na mecânica interna dos Beatles, esmiuçando não só como funcionava a banda legalmente, mas também como eram as relações entre seus integrantes. A forma como a Apple, empresa criada pelo quarteto e que tinha como objetivo ser o início de uma nova forma de fazer negócios, se metamorfoseou ao longo das décadas é impressionante, indo de ícone da contracultura à gigante do capitalismo.

Salta aos olhos a inocência que envolveu os negócios dos Beatles ao longo de sua carreira. A época era outra, mas a forma quase amadora com que a banda conduziu suas finanças e assinou contratos que depois se transformaram em enormes dores de cabeça, impressiona. A chegada do controverso Allen Klein ao universo Beatle, substituindo o falecido Brian Epstein, apenas realçou ainda mais os problemas administrativos do grupo. Notório por sua fama de mau caráter, Klein obteve o apoio quase incondicional de John, George e Ringo, e, simultaneamente, a antipatia imediata de Paul, razão pela qual as disputas entre os músicos acabaram indo parar nos tribunais.

Outro ponto que merece destaque e surpreende o leitor é o quão próximo o quarteto esteve de se reunir em diversas ocasiões até a morte de Lennon, em 8 de dezembro de 1980. Encontros não divulgados, intenções mútuas de aproximação, parcerias não finalizadas: o que não faltaram foram contatos pessoais e criativos entre os quatro músicos durante toda a década de 1970, principalmente entre Paul e John, deixando a banda a um passo de concretizar o sonho de milhões de fãs em todo o planeta.

Extremamente bem escrito e riquíssimo em informações, A Batalha Pela Alma dos Beatles é um livro sensacional. Não apenas uma obra indicada para fãs dos Beatles, mas, sobretudo, uma aula esclarecedora sobre como funciona a máquina administrativa e financeira por trás de uma grande banda, movida a milhares de contratos e zilhões de advogados. 

O sonho acabou em 1970, mas aqui ele mostra a sua verdadeira face, nem sempre agradável, porém sempre surpreendente. 

Faroeste Cabloco, um grande filme

17:07

“Faroeste Caboclo” sempre foi uma canção cinematográfica. A saga de João de Santo Cristo, criada por Renato Russo e alçada ao posto de um dos maiores clássicos da Legião Urbana, é uma das letras mais emblemáticas do rock brasileiro. Nada mais natural, portanto, que a história fosse transportada, efetivamente, para a tela dos cinemas.

Dirigido por René Sampaio, Faroeste Caboclo, o filme, tem roteiro de Victor Atherino e Marcos Bernstein e um enredo que se baseia na letra da música, mas não é a transposição literal da história imaginada por Renato. Esse é apenas o primeiro dos muitos acertos. Evitando o recurso fácil e tentador de citar frases completas da extensa letra nos diálogos, Sampaio torna o filme autêntico, verossímil e nada gratuito. Um exemplo claro acontece logo no início, quando João, interpretado com primor por Fabrício Boliveira, chega à Brasília no período natalino e, ao ver as luzes decorativas, é apenas enquadrado pela câmera enquanto a sua mente imagina as possibilidades que ele encontrará na capital federal - nada de o personagem abrir a boca e declamar um “saindo da rodoviária fiquei bestificado com as luzes de Natal, meu Deus que cidade linda, no ano novo eu começo a trabalhar”.

Sampaio imprime um clima de faroeste em todo o longa, usando com frequência paisagens áridas e poeirentas para ambientar a trajetória de Santo Cristo. Isso, aliado à fotografia inspirada de Gustavo Hadba, coloca o filme em um patamar elevado. Há ângulos inusitados e enquadramentos muito bem feitos, que se utilizam de recursos como o contraste exacerbado entre luz e sombra para contar a história com muito mais dramaticidade e um inegável requinte visual.

Outro ponto positivo de Faroeste Caboclo é o elenco. Além de Boliveira (João de Santo Cristo) temos Ísis Valverde (Maria Lúcia), Felipe Abib (Jeremias), César Troncoso (Pablo) e Antônio Calloni (como o detetive Marco Aurélio) em atuações que vão de competentes (no caso de Valverde) há inspiradas (Abib, Pablo e Calloni). Como nota negativa apenas a participação praticamente nula do falecido Marcos Paulo como o Senador Ney, pai de Maria Lúcia, personagem totalmente dispensável.

Como já dito, o filme é baseada na canção, mas não é literal à ela. O roteiro parte da letra de Renato Russo e leva o espectador para outro lugar, fiel à trama, mas muito mais autêntico e doloroso. Essa escolha torna a trajetória de Santo Cristo ainda mais cruel, tornando quase impossível a não identificação com o personagem. O filme não economiza ao mostrar cenas fortes e até mesmo brutas, e essa escolha só intensifica o clima de realidade que transborda da tela.

Em comparação ao outro filme envolvendo a Legião Urbana lançado recentemente, Somos Tão Jovens, Faroeste Caboclo ganha de goleada. Enquanto Somos Tão Jovens peca pela produção precária, mas ganha na homenagem sincera que faz aos primeiros anos da carreira de Renato Russo, a obra de René Sampaio é cinema de verdade. A cena do esperado duelo entre Santo Cristo e Jeremias, ápice do filme, bebe direto na fonte do diretor italiano Sergio Leone, variando planos fechados nos olhos dos protagonistas com cortes secos para outros pontos da tela, fazendo com que, mesmo inconscientemente, a associação com o grandes clássicos do faroeste seja imediata.

Faroeste Caboclo é um grande filme, que faz juz à história criada por Renato Russo e a torna ainda mais forte e atual. Além disso, revela um diretor cheio de talento, que mostra talento e potencial para brilhar muito em seus próximos projetos.

Compre já a pipoca e o refrigerante, porque vale muito a pena.

É só rock and roll, mas todo mundo gosta

15:18

It´s Only Rock 'n' Roll foi o último álbum dos Rolling Stones com Mick Taylor. O guitarrista sairia da banda algum tempo depois, dizendo-se esgotado pela estrada e pelo relacionamento sufocante com Mick Jagger e Keith Richards. Extremamente tímido e inseguro, na verdade Mick Taylor nunca se sentiu totalmente à vontade com os Stones, fato que se acentuou ano após ano pela recusa eterna de Jagger e Richards em dar crédito a Taylor nas composições que ele ajudou a criar. A única exceção é "Ventilator Blues", de Exile on Main St.

Gravado no Musicland Studios, em Munique, na Alemanha, o disco traz influências generosas de soul e funk, acrescentando ainda mais tempero ao som sacolejante dos ingleses. Além disso, foi o primeiro trabalho do grupo a ter a produção creditada aos The Glimmer Twins (alcunha de Mick e Keith), que, propositalmente ou não, tornaram o timbre das guitarras bastante pesado - para o grupo -, deixando a audição ainda mais interessante.

Apesar de contar com apenas dez faixas, muitas outras foram registradas, como era de hábito nas sessões de gravação da banda. Entre elas, três covers para clássicos do R&B e do soul: "Drift Away" de Dobie Gray, "Shame, Shame, Shame" de Shirley & Company e "Ain´t Too Proud to Beg" dos Temptations, sendo que apenas essa última entrou no álbum.

O LP abre com "If You Can´t Rock Me", uma tentativa de seguir a tradição do grupo de sempre apresentar grandes faixas de abertura, mas aqui o resultado é apenas satisfatório. "If You Can´t Rock Me" não é uma faixa ruim, está longe disso, mas colocá-la no mesmo patamar de "Brown Sugar" e "Sympathy for the Devil" - faixas que davam início a Sticky Fingers e Beggars Banquet, respectivamente - é covardia. Vale mencionar o baixo repleto de distorção tocado por Keith Richards (sim, Keith assumiu o instrumento nesta faixa, fato costumeiro nas gravações dos Stones) no meio da canção, ganhando um destaque pouco comum nos trabalhos da banda.

A já citada "Ain´t Too Proud to Beg" dá sequência aos trabalhos, e sua audição contagia, principalmente pelo refrão pra lá de chiclete, na melhor tradição da Motown. Uma das melhores do álbum, sem dúvida. Vale citar que "Ain´t Too Proud to Beg" foi lançada como single em 31 de outubro de 1974, duas semanas após o álbum chegar às lojas, com "Dance Little Sister" no lado B, e alcançou a décima-sétima posição nos charts da Billboard.

O grande clássico do disco vem a seguir. "It´s Only Rock 'n' Roll" é um dos maiores hinos dos Rolling Stones, e resume com perfeição o espírito da banda: é apenas rock and roll, mas a gente adora! O que pouca gente sabe é que Ron Wood, naquela época apenas um amigo da banda, foi fundamental na concepção da faixa. Mick Jagger e Keith Richards haviam dado uma força para Wood na gravação e composição de I´ve Got My Own Album to Do, primeiro disco solo de Wood, lançado em 13 de setembro de 1974. A convivência aproximou Ron da dupla criativa dos Rolling Stones, e Jagger trabalhou na surdina com o então guitarrista dos Faces na confecção da faixa que deu nome ao disco dos Stones. Apesar de nos créditos do álbum haver uma citação a Ron Wood como o inspirador da canção, ele não aparece como autor da mesma, cuja criação é creditada apenas a Jagger e Richards. Wood também toca violão de doze cordas na faixa. A canção foi o primeiro single do álbum, chegando às lojas no dia 26 de julho daquele ano, alcançando a décima-sexta posição do Top 100 da Billboard e a décima nos charts ingleses. O álbum, em compensação, foi fácil para o primeiro posto nos Estados Unidos e alcançou a segunda posição na Inglaterra.


Menos badaladas, algumas faixas de It´s Only Rock 'n' Roll se transformaram, com o tempo, em preferidas entre os fãs, ganhando o status de pequenas jóias da carreira da banda. A doce balada "Till the Next Goodbye", com uma interpretação primorosa de Jagger, é uma delas. A excelente "Time Waits For No One", outra. Com mais de seis minutos, traz Mick divagando sobre os anos que passaram e os que estão por vir, e conta com um solo sensacional de Mick Taylor, que faz toda a diferença na canção. Aliás, como já dito, a insegurança fazia com que Taylor se sentisse pouco valorizado nos Stones, mas é só ouvir faixas como "Time Waits For No One" para ver o quanto ele elevou a música do grupo a um outro nível. Ainda que não tivesse a inventividade de Brian Jones, Mick Taylor era um guitarrista muito técnico, extremamente sensível, que conseguia, com poucas notas, transmitir um mar de sensações com o seu instrumento.

Há ainda "Luxury", um rock arrastado com um grande refrão, que precede "Dance Little Sister", uma paulada digna dos melhores momentos dos Stones. Com o baixo de Wyman e as guitarras em primeiro plano, é daquelas faixas típicas do grupo, extremamente contagiantes, feitas sob medida para levantar estádios.

A parte final do álbum traz ainda a bela "If You Really Want to Be My Friend", uma das grandes baladas da carreira dos Stones, cantada por um Jagger com o coração na mão. Outro destaque da faixa são os backing vocals, que fazem toda a diferença.

E, fechando o play, "Fingerprint File" é um funk psicodélico e hipnótico, mais uma vez com uma grande performance de Mick Taylor, que se contrapõe perfeitamente a Keith Richards. Interessante notar que, ao contrário das outras relações de Keith com seus companheiros de seis cordas - Brian era a exuberância, Richards era o lado cru da primeira fase dos Stones; e, ao lado de Wood, Keith desenvolveu um entrosamento tão grande que é praticamente impossível saber que partes cada um dos dois executa, já que suas guitarras soam como uma só -, com Taylor, um instrumentista extremamente técnico, Keith mostra uma aprimoramento e uma evolução palpáveis em cada uma das faixas que gravou enquanto Mick Taylor esteve na banda, caminhando a passos largos em direção a um caminho que nem ele saberia dizer qual seria. A influência de Taylor sobre Richards foi tão grande que moticou até mesmo uma carta de agradecimento de Keith ao guitarrista quando ele se desligou dos Stones, o que levou Mick Taylor às lágrimas.

Um assunto que não pode deixar de ser abordado quando se fala do disco é a ótima ilustração da capa, desenvolvida por Guy Peellaert, trazendo os Rolling Stones em uma escadaria do que parece ser um templo greco romano, rodeados por dezenas de mulheres, como que sendo recebidos no Olimpo do rock, seu lugar de direito.

Concluindo, apesar de não estar no mesmo nível de clássicos intocáveis como Beggars Banquet, Let It Bleed, Sticky Fingers e Exile on Main St., It´s Only Rock 'n' Roll apresenta uma banda com fome ainda para experimentar, trilhando caminhos até então inéditos, com sede de provar que continuavam relevantes para a cena rock dos anos setenta. De maneira geral, It´s Only Rock 'n' Roll é um trabalho muito bom, com ao menos três composições excelentes (a que dá nome ao álbum, "Time Waits For No One" e "Fingerprint File") e que possui o seu lugar e a sua importância na longa discografia daquela que sempre será a maior banda de rock do mundo.

segunda-feira, 20 de julho de 2015

Quando os Gigantes Caminhavam Sobre a Terra, a biografia definitiva do Led Zeppelin

17:30

Tudo que cerca o Led Zeppelin, mesmo passados 35 anos do encerramento das atividades da banda com o falecimento do baterista John Henry Bonham em 25 de setembro de 1980, continua sendo superlativo. Basta relembrar da comoção que foi o show realizado na O2 Arena em dezembro de 2007 e os impressionantes números de venda que Celebration Day, o registro dessa apresentação, quando do seu lançamento.

Uma história tão grandiosa e repleta de lendas e mistérios como a vivida por Jimmy Page, Robert Plant, John Paul Jones, John Bonham, o manager Peter Grant, seu assistente e leão de chácara Richard Cole e todos que cruzaram o caminho do Led Zeppelin em seus pouco mais de dez anos de vida merecia um registro à altura. Pois bem: ele existe e tem o pomposo título de Quando os Gigantes Caminhavam Sobre a Terra. É assim que se chama a biografia do grupo escrita pelo jornalista inglês Mick Wall, lançada originalmente na Europa e nos Estados Unidos em 2008 e um ano depois aqui no Brasil.

Mick Wall é um dos jornalistas de rock mais conhecidos e respeitados do Reino Unido. Iniciou a sua carreira na extinta revista Sounds em 1977, passou pela Virgin Records, fez parte da equipe que criou a Kerrang!, foi editor da Classic Rock e é presença frequente em diversos documentários e programas musicais. Além disso, iniciou em 1986 uma bem sucedida carreira como escritor, retratanto nas páginas de seus livros as histórias de ídolos como Ozzy Osbourne, Guns N’ Roses, Status Quo, Bono e diversos outros. São de Wall os dois principais livros publicados até hoje sobre o Metallica (Enter Night - Metallica: The Biography, lançado em 2012 no Brasil com o título de Metallica: A Biografia) e Iron Maiden (Run to the Hills: The Authorised Biography, também disponível em edição nacional).

Quando os Gigantes Caminham Sobre a Terra saiu por aqui em uma belíssima edição publicada pela Larousse. Com 520 páginas, capa dura - cuja arte é diferente da edição original -, papel diferenciado e impressão primorosa, é um deleite para qualquer fã de rock. Wall conta a história sempre partindo de flashbacks montados a partir de sua imensa pesquisa, entrevistas e depoimentos. A prosa de Mick, escritor de mão cheia e que sabe como prender o leitor, faz a já fantástica trajetória do Led Zeppelin ficar ainda mais mítica e épica.

Partindo do início do grupo, do exato momento em que Jimmy Page se viu sozinho nos Yardbirds e saiu em busca de músicos para montar a banda dos sonhos que tinha formatado em sua mente, Wall conta, com grande riqueza de detalhes, tudo o que envolveu o Led Zeppelin em sua pouco mais de uma década de vida. Estão no livro os triunfos, os sucessos, e também o lado negro do quarteto, seja nas depravadas e antológicas experiências com groupies, no consumo industrial de bebidas e drogas, e também a violência e truculência com que Peter Grant e Richard Cole tratavam qualquer pessoa que cruzasse os caminhos e interessas da banda.


Um dos maiores méritos da obra é mergulhar, de maneira inédita, no interesse de Jimmy Page pela obra de Aleister Crowley e o ocultismo, tão comentado mas pouquíssimo documentado. O livro dedica um longo capítulo, com mais de 50 páginas, para esmiuçar a fundo o envolvimento de Page com Crowley e a magia, e em como a paixão do guitarrista pelo tema influenciou a carreira da banda. Esse capítulo é exemplar, lançando luz sobre um aspecto da vida de Page sempre cercado por sombras.

O retrato do grupo no auge, hipnotizando plateias em turnês gigantescas pelos Estados Unidos durante a primeira metade da década de 1970, também demonstra a razão que faz do Led Zeppelin uma banda gigantesca e profundamente influente na cultura norte-americana até hoje. Apesar de ingleses, seguindo a orientação do astuto e competente Grant, desde o início da carreira o grupo focou todas as suas forças na conquista do no mercado americano, e essa decisão se mostrou acertada, com os discos do Led batendo recordes e estabelecendo novos patamares de vendas, e também de público, não só nos Estados Unidos, mas em todo o planeta.

Mick Wall não esteve preso a nenhuma limitação ao fazer a sua pesquisa para escrever Quando os Gigantes Caminhavam Sobre a Terra. Isso faz com que o livro não se furte de documentar o quão profundos foram os problemas de toda a banda, e também de Peter Grant e Richard Cole, com as drogas. Page e Bonham sempre foram os mais descontrolados, vivendo a persona de rock stars ao extremo, enquanto Plant e, principalmente, John Paul Jones, eram mais controlados - pero no mucho. O vício de Jimmy Page em álcool, cocaína e heroína o levou ao fundo do poço durante a década de 1980, e essa acabou sendo a maneira que o músico encontrou para superar a morte do parceiro de banda e de vida, Bonzo.

A vida pós-Led dos músicos também merece muita atenção de Wall. Esmiuçando a carreira solo de Plant, mostrando o trabalho de produtor e arranjador de John Paul e relatando a busca por um novo caminho de Page, o livro demonstra como, apesar de separados, os três músicos sempre tiveram os seus destinos cruzados ao longo dos anos. É possível perceber, ao chegar ao fim da leitura, as razões pelas quais Robert não deseja o retorno da banda e, ao entender os motivos do vocalista, é impossível não simpatizar com o seu lado.

Quando os Gigantes Caminhavam Sobre a Terra é a melhor biografia sobre uma banda de rock já publicada, superando até mesmo The Beatles, o gigantesco tratado escrito por Bob Spitz e que conta com quase 1.000 páginas. Se você gosta de música, de rock, de literatura, ou simplesmente de uma jornada épica e que beira o inacreditável, irá se deliciar com o livro.

Leia em alto e bom som!

Talento, estratégia e profissionalismo: como o Iron Maiden se tornou um gigante da indústria musical

12:22

Meados de junho de 1979. Em um pub chamado The Swan, perto do famoso Hammersmith Odeon, o Iron Maiden, uma jovem banda do leste de Londres, está prestes a entrar no palco. Mas há um problema: o seu vocalista está preso a alguns quarteirões dali. Paul Di'Anno havia sido detido por estar com uma arma, uma faca encontrada pela polícia em uma inspeção de rotina do lado de fora do pub. Di'Anno era bom de papo e geralmente conseguia se livrar da maioria dos problemas, mas nesse dia ele não estava com sorte.

Dentro do The Swan, o baixista Steve Harris estava nervoso com as notícias sobre o seu cantor, principalmente pelo fato de haver um convidado especial na plateia. Rod Smallwood – então com 29 anos, seis a mais que Steve -, manager e agente de diversas bandas, tinha escutado uma fita demo do Iron Maiden entregue a ele por um amigo que conhecia Harris. Rod sacou o potencial da banda e resolveu assistir a dois shows do grupo para ver como eles soavam ao vivo. O primeiro, no The Windsor Castle em Harrow Road, acabou antes de começar quando a banda, sem saber que estava sendo observada por aquele que seria o seu futuro manager, se recusou a tocar porque aproximadamente trinta e poucos amigos e fãs, que estava vindo para o show, ainda não haviam chegado ao local. O segundo show era no The Swan.

Quando Smallwood ouviu que Di'Anno estava preso, foi até Harris e falou para o baixista: “Vocês vão tocar. Seus fãs estão lá fora esperando por vocês”. Steve hesitou, mas Rod pressionou um pouco mais: “Você conhece as letras?”. “Claro, fui eu que as escrevi”, respondeu Harris. “Pode cantá-las?”. “Não necessariamente”. “Pode fazer isso?”. “É claro!”.

Dez minutos depois, o Iron Maiden subia ao palco como um trio: Harris, o guitarrista Dave Murray e o baterista Doug Sampson. Nessa época, eles ainda não tinham um segundo guitarrista, mas mesmo apenas com Dave nas seis cordas e com Steve como vocalista e baixista, a performance contagiou o público. Steve relembra: “Quando você tem um problema, você precisa enfrentá-lo. Havia certas partes que eu simplesmente não conseguia cantar e tocar ao mesmo tempo. Situações assim fazem você dar o melhor de si”.

Para Smallwood, este foi o momento onde, pela primeira vez, ele acreditou que o Iron Maiden poderia subir até o topo. “Steve não sabia cantar, mas eu nunca tinha visto alguém como ele em cima de um palco. Ele e David olhavam no olho do público. Adorei essa atitude! A banda não tocou bem e seria normal eu ir embora e deixar eles de lado, mas depois deste show eu fiquei realmente impressionado”.

Apenas cinquenta pessoas estavam no The Swan naquela noite, mas esse show foi o mais importante da banda até então, na opinião tanto de Steve, o líder do grupo, quanto de Rod, o homem que seria o novo manager do Maiden. Este foi o início de uma relação longa e muito próxima, que fez o Iron Maiden decolar para as alturas. Porém, o mais marcante daquela noite foi a prisão de Paul Di'Anno. A banda ria do incidente quando o vocalista enfim chegou ao pub, após o show. Ele era um problema nos planos do grupo rumo ao sucesso, e era preciso encontrar outro vocalista.


A história do Iron Maiden é um clássico drama em três atos: ascenção, queda e ressurreição. E no centro disso tudo está o homem que substituiu Di'Anno em 1981, Bruce Dickinson. Foi a visão singular de Steve Harris que tornou o Iron Maiden a maior banda de heavy metal de sua geração, e o fato de Rod Smallwood acreditar nessa visão – ao lado de seu sócio Andy Taylor – transformou o Maiden em uma franquia mundial. Mas foi Bruce Dickinson, com sua voz poderosa e performance energética, que fez do Iron Maiden uma banda realmente clássica. A sua saída, em 1993, precipitou o declínio do grupo. E o seu retorno, em 1999, foi a peça-chave para a sua ressurreição.

Nos mais de 30 anos em que Bruce está no Maiden, são estes três “loucos controlados”, como Smallwood chama o trio, que definiram a história da banda. Harris, o sisudo e fechado workaholic; Rod, o esfuziante cara do condado de Yorkshire; e Dickinson, o elétrico, opinativo e multi-talentoso vocalista. O Iron Maiden sempre será a banda de Steve Harris. Foi o baixista quem criou o grupo no dia de Natal de 1975 e o tem liderado desde então, escrevendo a grande maioria de suas canções. Em Smallwood, Harris encontrou um manager tão forte e influente quanto o lendário Peter Grant, do Led Zeppelin. Em em Bruce ele se deparou não apenas com um cara igual a si mesmo, mas também com um vocalista de opiniões extremamente fortes sobre o que o Maiden deveria ou não fazer.


Há alguns conflitos internos no Iron Maiden. O mais famoso deles é a rivalidade entre Harris e Dickinson, que desde o retorno de Bruce ao grupo parece em stand-by. O que move a dupla é um objetivo comum: a determinação de fazer do Iron Maiden a maior e melhor banda de heavy metal do mundo.

Começando com The Number of the Beast em 1982, primeiro disco com Dickinson e o primeiro número 1 do grupo no Reino Unido, o Iron Maiden foi o nome de maior sucesso do metal nos anos 1980. Eles faziam como as bandas de antigamente, trabalhando duro em longas turnês mundiais seguidas, com o mínimo de apoio da mídia através dos poucos especialistas no gênero presentes nas redações de revistas e estúdios de rádios da época. E assim eles foram crescendo. O Maiden teve alguns singles de sucesso, que figuraram no top 20 inglês na década de oitenta, mas a sua música nunca foi feita para estar ho hit parade. Eles assinaram com a EMI, mas mantiveram o controle sobre a direção artística de sua obra. E foi essa pegada de artista independente em relação à indústria da música, e à própria música em si, que fez do Iron Maiden uma inspiração para bandas como Metallica, como admitiu Lars Ulrich: “O Iron Maiden foi o nosso único e verdadeiro modelo”.

Steve Harris é um rock star atípico. Introspectivo, sempre longe dos flashes, ele não aceita muito a classificação criada por Rod sobre a hierarquia do Iron Maiden. “Não sei dizer se sou um maluco controlado. Eu só gosto quando as coisas funcionam”. Steve não concorda com o termo escolhido por Smalwood para definir o modus operandi da banda - “uma democracia não-democrática”. “Eu sei o que Rod quer dizer. Na maioria das vezes, eu e ele discutimos bastante”. E discutir assuntos é uma regra para o líder do Iron Maiden, que segue uma lógica muito simples: “Eu penso que, como em qualquer banda, você precisa de uma pessoa que tome as decisões e faça o trabalho duro. A maioria das pessoas não quer fazer isso, mas eu centralizei tudo desde o início”.

Nos primeiros tempos do Iron Maiden, Steve Harris era o manager da banda e fechava os contratos para os shows. Ele tirou Dave Murray e Paul Di'Anno de bandas rivais, escreveu ou co-escreveu todo o material inicial do grupo e criou a logo com as próprias mãos. O que Rod Smallwood ofereceu a Steve e ao Iron Maiden foi uma grande experiência na indústria musical, contatos-chave e, talvez, o mais importante de tudo: um compromisso com o grupo. Como o próprio Rod admite: “Steve encontrou em mim um cara que trabalhava duro como ele”.

Smallwood tinha grandes sonhos. “Eu sempre quis ser um manager. Admirava bandas como o Led Zeppelin, que sempre fazia grandes shows ao redor do mundo”. E em Steve Harris ele encontrou o seu Jimmy Page, um líder com talento genuíno e convicção absoluta. “Em uma banda nem todos querem liderar, mas Steve era, inquestionavelmente, o líder do Maiden, e todos ficaram felizes com isso. Depois de conhecê-lo um pouco melhor, percebi a sua grande determinação, energia e integridade. Mas Steve era 100% música, ele não queria negociar com as gravadoras. Quando cheguei, este era o meu papel”.

Rod só foi contratado oficialmente como manager depois de fechar contrato com a EMI, em 12 de novembro de 1979. A CBS havia recusado o grupo, alegando que as canções não eram fortes o suficiente. Mas Smallwood foi hábil o bastante para convencer a EMI a assinar um contrato longo com o Maiden, uma banda jovem que precisava de segurança e tempo para construir uma carreira. “Isso foi crucial. A EMI insistia em um contrato de três álbuns, nos dando apenas 50 mil libras pelos três discos, mais os custos de gravação. Mas nós precisávamos comprar equipamento, precisávamos disso para sair em turnê. Então eu consegui 35 mil de adiantamento para o primeiro álbum, 15 mil para o segundo e nada para o terceiro. Desde então, nós sempre renegociamos o contrato com a EMI após três discos”, conta Rod.

Após o acordo com a EMI, Smallwood se transformou também no co-manager de uma banda de art rock chamada Gloria Mundi, que assinou com a RCA. Seu parceiro Andy Taylor, de quem era amigo desde os tempos da Universidade de Cambridge, era dono de um senso estratégico muito bom. Taylor tinha um visão global e elaborou um longo planejamento estratégico para o Iron Maiden. “O heavy metal é um fenômeno mundial, então precisamos estar presentes em todo o mundo”, afirmava Taylor. Rod também pensava dessa maneira, e junto com a banda fechou um pacto baseado no contrato de três anos que haviam assinado: “Vamos ter apenas o que precisamos para sobreviver, nada além disso”.

Quando o Maiden gravou The Number of the Beast, os músicos recebiam apenas 60 libras por semana. Com a palavra, Steve Harris: “Rod e eu dividíamos as coisas. Eu escrevia as canções, todas elas, e não ganhava nada a mais por isso. Rod também não recebia nenhuma comissão. Este era o nosso compromisso. É como em qualquer negócio: você não tem garantia de que vai dar certo. Mas, para nós, a coisa nunca girou em torno da grana. Nós só queríamos ser uma grande banda”.


Antes da gravação do primeiro LP, o Iron Maiden apresentou um novo guitarrista, Dennis Straton, e um novo baterista, Clive Burr, substituto de Doug Sampson. Para Steve, demitir Sampson era necessário, mas foi muito difícil. “Por um tempo depois disso eu fiquei conhecido como Major Harris ou Aiatolá, mas eu precisava fazer o que foi feito”.

O disco, intitulado apenas com o nome da banda e gravado ao custo de somente 12 mil libras, foi um sucesso de crítica e público. Harris nunca ficou satisfeito com a produção de Will Malone, mas o som casou perfeitamente com o estilo agressivo da quinteto. Lançado em 4 de abril de 1980, Iron Maiden alcançou o quarto lugar nas paradas inglesas e vendeu 350 mil cópias em todo o mundo. “Eram números expressivos para um disco de estreia”, recorda Rod. Isso fez a reputação do Maiden junto à EMI crescer. Segundo Rod, “se você alcança sucesso internacional, eles não interferem em mais nada”.

A imagem da capa do primeiro disco deu ao grupo uma identidade, tornando-se a sua marca registrada, explorada durante toda a carreira. A ilustração, pintada por Derek Riggs e batizada como Eddie, tornou-se um elemento muito importante na trajetória da banda. “Nós não tínhamos um Mick Jagger”, recorda Rod. A imagem de Eddie se transformou, junto com a logo criada por Steve, em uma poderosa ferramenta de marketing, estabelecendo o Iron Maiden como uma força também no merchandising. E ninguém entendia mais desse assunto, naquela época, do que o Kiss.

Quando o Maiden abriu a turnê europeia do Kiss em agosto de 1980, Gene Simmons disse para Rod que havia adorado Eddie, e previu: “O Iron Maiden competirá com o Kiss como a maior força do merchandising musical na América”. Falando do assunto hoje em dia, Simmons afirma: “O Iron Maiden imediatamente me impressionou com o seu enorme potencial. A banda era poderosa e fazia boa música, uma combinação rara. E, para um porco capitalista como eu, Eddie era um ícone visual incrível que poderia render rios de dinheiro para todos na banda”. Rod completa: “Nós somos uma máquina de merchandising. Se não fosse assim, ainda estaríamos excursionando como no início da carreira”.


O segundo disco, Killers, saiu em fevereiro de 1981 e trouxe um novo guitarrista, Adrian Smith. Stratton estava fora porque, segundo Rod, “ele gostava de Eagles e usava roupas que não combinavam com o heavy metal”. Killers custou um pouco mais do que o primeiro álbum – o valor ainda pequeno de 16 mil libras -, mas vendeu 750 mil cópias em todo o mundo, incluindo 150 mil só nos Estados Unidos. Entretanto, durante a turnê pela Alemanha em maio, shows tiveram que ser cancelados, pois Paul Di'Anno havia perdido a voz. Segundo Steve, “Paul ferrou com tudo”.

Di'Anno sempre fez tudo de maneira rápida e sem preocupação, mas não havia lugar no grupo para passageiros. As turnês eram a chave para o desenvolvimento do Iron Maiden, e, como o próprio Di'Anno admite, o seu estilo de vida não casava com isso: “Eu sempre estava entupido de cocaína, 24 horas por dia, 7 dias por semana. Eu pensava que era isso que as pessoas faziam quando estavam em uma grande banda de rock. E eu sabia que, nestas condições, nunca conseguiria cantar durante toda a tour”. Foi assim que surgiu um grande teste para a liderança de Harris e a gerência de Smallwood: encontrar um novo vocalista.

A primeira vez que Bruce Dickinson viu o Iron Maiden ao vivo foi em 8 de maio de 1979, no Music Machine de Camden, onde o Maiden tocou depois do Angel Witch e abriu para o Samson, a banda em que Bruce cantava. O review deste show, escrito pelo jornalista Geoff Barton e publicado na revista Sounds, foi a primeira vez em que a frase New Wave of British Heavy Metal foi usada. Assistindo o Maiden ao lado do palco, Dickinson estava convencido de que aquela banda se tornaria uma das maiores do mundo. Ele também tinha certeza de que ele, e não Paul, era quem deveria ser o vocalista.


Era muito claro que o Maiden seria gigante. A banda era uma força da natureza. Paul Di'Anno era ok, mas eu pensei: eu realmente posso fazer algo com a banda”, relembra Bruce. Ele não precisou esperar muito pela sua chance. No verão de 1981, Dickinson foi apresentado como novo vocalista do grupo. Ele dizia que sentia por Paul, mas também sentia que a carreira do Samson estava estagnada. O álbum Head On (1980) alcançou o top 40 inglês, mas o disco seguinte, Shock Tactics (1981), nem sequer figurou nas paradas. Em 29 de agosto de 1981, Bruce teve um encontro com Steve e Rod no backstage do Reading Festival após o show do Samson. Poucos dias depois, o vocalista entrou em estúdio com Steve e gravou os vocais de algumas canções do Iron Maiden para ver como elas soariam. E a sua voz casou de forma perfeita com o som do grupo. O Maiden tinha dois shows marcados na Suécia no mês de setembro, e depois dessas apresentações Paul teve um encontro com Rod, onde foi demitido. No dia seguinte, Bruce já fazia parte da banda, alterando o seu apelido de Bruce Bruce, como era conhecido no Samson, para o seu nome verdadeiro.

Na opinião de Rod Smallwood, “não é legal ficar falando de pessoas que não estão mais na banda, mas o fato é que você não troca o seu vocalista se a coisa não for realmente séria. E, como nós prevíamos, com Bruce o Iron Maiden ficou muito melhor”. Mas, naquela época, Steve não tinha muita certeza disso. Tecnicamente, Bruce era um vocalista muito melhor, mas Di'Anno era como um herói para os fãs. “Nós sabíamos que Bruce era incrível, mas ele era muito diferente de Paul, então pensamos: as pessoas vão aceitar essa mudança? Bem, elas aceitaram!”.

Bruce Dickinson foi anunciado oficialmente como novo vocalista do Iron Maiden no começo de outubro de 1981, e fez sua estreia com a banda em palcos ingleses no Rainbow, em Londres, em 15 de novembro, depois de cinco shows de aquecimento na Itália no mês anterior. A performance autoritária de Bruce calou os órfãos de Di'Anno e acabou com os medos de Harris. Mas, para Bruce, as coisas não foram tão simples assim.

Ele e os outros integrantes do Samson haviam assinado um contrato com os empresários do grupo, cuja multa, se alguém saísse da banda, era de 250 mil libras. Bruce lembra que eles ganhavam 30 libras por semana, era impossível pagar aquele valor. Então Rod interferiu, e depois de muita negociação fechou um acordo onde pagou 30 mil libras pelo passe de Dickinson, valor este que seria devolvido por Bruce a Sanctuary, empresa de Rod e Andy Taylor, quando o vocalista tivesse condições. Era uma bela grana para um garoto de 23 anos, mas Bruce nunca se preocupou com isso. Ele estava convencido de que, com ele, o Iron Maiden venderia milhões de discos. Essa era uma opinião compartilhada pelo produtor do grupo, Martin Birch. Durante a gravação do terceiro álbum, The Number of the Beast, Birch deixou claro para todos: “Estamos fazendo um grande álbum, que mudará as suas vidas”.


Em fevereiro de 1982, seis semanas antes do lançamento do álbum, o single “Run to the Hills” entrou no top 10 inglês. Mas nem tudo eram flores. Em 16 de março, quando a Beast on the Road passou pelo Newcastle City Hall, aconteceu o primeiro desentendimento sério entre Steve Harris e Bruce Dickinson. Vindos de um show na noite anterior, a banda passou 12 horas gravando o clipe da faixa “The Number of the Beast”. “Nós não conseguimos dormir muito, e estávamos um pouco irritados”, recorda Bruce. Em uma cena diga de Spinal Tap, rolou um stress entre Steve e Bruce sobre a posição do pedestal do microfone do vocalista. Segundo Dickinson, “Steve queria ficar no meio do palco, quase batendo o braço do baixo no meu rosto. Então eu pensei: 'Pô, eu sou o vocalista, eu que fico no centro do palco! Quando eu não estiver cantando ele pode ficar ali, mas quando eu estiver cantando esse é o meu lugar'. Coloquei então hastes mais longas no suporte do microfone, e quando Steve chegava perto eu o empurrava para longe”. Com a palavra, Steve Harris: “Ele poderia quebrar o meu nariz em minutos, mas eu pensei isso é bom, é a atitude que queremos em um frontman”. Bruce continua: “Steve ficou furioso e gritou 'ele que se foda, não vou sair daqui'. Rod, que estava por perto, disparou: 'Ele não vai se foder, acostume-se!'. Então todo mundo se acalmou”.

Os dois dão risada dessa história atualmente, mas ela foi o início de uma intensa rivalidade entre a dupla. “Sim, era a banda de Steve, mas eu tinha as minhas próprias ideias, e iria fazer tudo para convencer as pessoas a concordar com elas”.

The Number of the Beast representou um grande passo para o Iron Maiden. Em músicas como “Run to the Hills”, “Children of the Damned”, “22 Acacia Avenue”, “Hallowed Be Thy Name” e na faixa-título, o grupo finalmente soava como Steve Harris sempre havia desejado. Em abril de 1982, o disco alcançou o número 1 no Reino Unido. O álbum foi gravado em apenas quatro semanas e custou 28 mil libras. “Não recebemos nenhum adiantamento da gravadora. O investimento total da EMI foi de 28 mil, e nos primeiros seis meses o disco havia vendido 1 milhão e meio de cópias”, recorda Rod. Nas palavras de Bruce, “o que aconteceu com The Number of the Beast foi muito além dos nossos sonhos mais loucos”. No dia em que o disco chegou ao número 1, a banda foi ao Marquee celebrar, e Steve pediu a Rod uma grana extra para pagar uns drinks para os amigos. O máximo que ele conseguiu foi um aumento para os músicos, que passaram a receber 100 libras por semana.

A banda não precisava de muito dinheiro. Eles estavam em turnê até o final do ano, vivendo em hotéis. Mas quando voltaram para casa no Natal, receberam o seu primeiro grande pagamento. Durante o verão, Andy Taylor e Rod Smallwood sentaram à mesa novamente com a EMI, pois o contrato inicial de três álbuns havia expirado. A dupla conseguiu um acordo muito melhor, incluindo adiantamento de direitos autorais futuros e porcentagem sobre a vendas dos discos. “Nós sempre fomos muito cuidadosos em assuntos financeiros”, admite Rod. E o manager, finalmente, cobrou a sua comissão para a banda. “Eles me deram uma grana preta depois que assinamos o novo contrato”, sorri o manager. Todos os músicos compraram suas casas. Bruce gastou metade do que ganhou comprando um lugar em Chiswick, e quitou a sua dívida com a Sanctuary. Mas depois de apenas dois dias em casa, o vocalista teve uma repentina mudança de humor. “Para ser honesto, eu estava entrando em depressão. Eu fazia parte de um grande banda, tinha um disco no número 1, havia acabado uma turnê mundial: o que eu iria fazer com o resto da minha vida?”. Já Steve era o oposto disso: “Eu nunca pensei 'ok, estamos no topo, é isso'. Eu sempre quis mais e mais”.


Com o Iron Maiden lançando uma série de álbuns de sucesso e crescendo cada vez mais, Rod Smallwood e Andy Taylor começaram a construir um império. Em 1984, a Sanctuary passou a administrar outros artistas – os primeiros foram W.A.S.P., Helloween e Skin – e a expandir os seus negócios para outras áreas, como a agência de artistas Fair Warning, licenciamento, administração de carreiras e merchandising. Andy Taylor desenvolveu um modelo de negócio 360 graus, que hoje é usado como referência por toda a indústria musical.

O Iron Maiden era o motor para a expansão do Sanctuary Group. Mas o sucesso da banda criou os seus próprios problemas. O excesso de trabalho cobrou o seu preço. “Nós fazíamos um álbum por ano, seguido de uma excursão mundial. Não sei onde estávamos com a cabeça!”, reconhece Rod. No final da apropriadamente intitulada World Slavery Tour – 192 shows entre agosto de 1984 e julho de 1985 -, um exausto Bruce Dickinson caiu novamente em depressão e quase deixou o grupo.

Steve relembra a tour, e especialmente o que acontecia com Bruce: “Shows de 2 horas, 5 dias por semana durante um ano: isso é suficiente para deixar qualquer um maluco! E Bruce, por ser o cantor, estava completamente ferrado!”. Mas foi apenas quando a banda começou a compor para o disco seguinte, Somewhere in Time, que Harris percebeu o quanto a turnê anterior havia afetado o seu vocalista. Nenhuma canção de Bruce foi incluída no álbum. “Pensei: vou apenas pegar o meu cheque e fazer um bom trabalho como vocalista. Mas eu não estava feliz, precisava de mais. Eu precisava criar algo”, conta Bruce.


No disco seguinte, Seventh Son of a Seventh Son, Bruce Dickinson foi muito importante, co-escrevendo quatro faixas. “Quando Steve falou da ideia de gravarmos um álbum conceitual, eu achei brilhante”. Revitalizado, o vocalista gravou um álbum solo, Tattooed Millionaire, ao lado do ex-guitarrista de Ian Gillan, Janick Gers, que mais tarde entraria no Maiden substituindo Adrian Smith. Bruce também lançou o seu primeiro livro em 1990, The Adventures of Lord Iffy Boatrace. Mas Dickinson estava perdendo o interesse pelo Iron Maiden. O cantor considerou o disco seguinte, No Prayer for the Dying, uma piada, chegando a questionar diversas vezes os outros músicos, enquanto estavam gravando, se eles estavam realmente fazendo aquilo a sério.

Ironicamente, a canção de maior destaque em No Prayer for the Dying é de autoria de Bruce, “Bring Your Daughter … to the Slaughter”, e deu ao Maiden a primeiro posição nas paradas em janeiro de 1991. O álbum seguinte, Fear of the Dark, também alcançou o topo dos charts ingleses em 1992. Porém, o surgimento do grunge tornou aquela época especialmente difícil para a velha guarda do rock, e quanto o Metallica redefiniu o metal com o Black Album, Bruce sentiu que o Iron Maiden estava perdido. “Eu achava que nós deveríamos ser mais perigosos”, lembra o vocalista.

Bruce colocou as suas frustrações para fora em seu segundo disco solo. “Foi como um desafio. Eu quis fazer em Balls to Picasso algo próximo do que eu estava sentindo. Eu não estava feliz em fazer parte de uma máquina de sucesso. Entendi que a única forma de me satisfazer era saindo da minha zona de conforto, e a única forma de fazer isso era saindo da banda”.

O vocalista deixou o Iron Maiden em 28 de agosto de 1993, ao final de uma turnê pela Europa. Rod Smallwood, com a sua postura típica, hoje enxerga algo positivo na saída de Bruce: “Quando ele me contou, eu não gostei nada daquilo. Mas foi bom para nós. O metal estava perdendo força com o advento do grunge, e todas aquelas bandas de hair metal da MTV tinham dado ao gênero uma péssima reputação”. Steve Harris já pensa diferente: Foi realmente um grande golpe quando Bruce nos deixou. Mas a nossa atitude foi 'vamos dar a volta por cima'. Era tudo o que poderíamos fazer”.



Bruce foi substituído por Blaze Bayley, do Wolfsbane. Para Blaze, entrar no Iron Maiden foi uma benção divina. Ele estava quebrado, e o Wolfsbane estava parado desde que havia rompido com a gravadora Def Jam, de Rick Rubin. Porém, a verdade é que Blaze nunca estava à altura de uma banda como o Maiden. Ele era um grande frontman e uma pessoa adorável, mas não conseguia cantar o material clássico do grupo. E os dois álbuns que gravou com o Maiden – The X Factor (1995) e Virtual XI (1998) – são os mais fracos de todo o catálogo da banda.

Sem Bruce Dickinson, o Iron Maiden amargou um longo período de vacas magras. Com o perdão da palavra, com Blaze o Iron Maiden entrou em declínio. Em contraste, a Sanctuary estava voando alto. O modelo de negócio 360 graus de Andy Taylor havia dado muito certo, e ele e Rod decidiram vender parte de sua participação na empresa, ficando cada um com apenas 20% (hoje, o Sanctuary Group faz parte da Universal Music). Taylor foi nomeado o novo CEO da empresa, e Smallwood ficou responsável pelo gerenciamento de artistas.

Mas o Iron Maiden continuava sendo a prioridade de Rod, e no final de 1998, com a carreira da banda estagnada, ele deu um ultimato a Steve: “Até o final do dia, Blaze Bayley estará fora do Iron Maiden. Se você construiu uma lenda com esta banda, você tem que mantê-la. É meu trabalho como manager fazer tudo pelo melhor do Iron Maiden”. Rod e Steve têm lembranças diferentes sobre este momento. De acordo com Rod, o baixista a princípio foi contra o retorno de Bruce: “Steve tem uma personalidade muito forte e pensa de uma maneira única. Ele precisava de tempo para refletir sobre o assunto”.

Além disso, Bruce havia ferido os sentimentos de outros integrantes do grupo. Nicko McBrain recorda: “Ele disse 'foda-se, estou fora'. Se alguém faz uma merda com você, as coisas precisam ser resolvidas”. Mas depois de cinco longos anos e árduos anos com Blaze, a verdade era uma só: o Iron Maiden precisava de Bruce Dickinson, e Bruce precisava do Maiden.

Desde 1994, quando lançou Balls to Picasso, o álbum que começou a compor quando ainda estava na banda, a carreira solo de Bruce havia sido prolífica, mas nada espetacular. “Eu havia vendido algumas centenas de milhares de discos, mas quando os primeiros sinais de fumaça começaram a vir do Maiden, meu guitarrista Roy Z falou: 'O mundo precisa que você volte para a banda'. Eu respondi: 'Por Deus, Roy, você está certo!'”.

Blaze Bayley foi chamado ao escritório de Rod Smallwood. “Eu sabia que os meus serviços não eram mais necessários. Não tenho sentimentos ruins a respeito disso. Eu gostava do Iron Maiden antes de entrar na banda, e continuei gostando depois que saí”, conta um diplomático Blaze.


Para Bruce voltar ao Iron Maiden, Steve Harris precisou ser persuadido de que as diferenças entre os dois fossem esquecidas. Rod convocou uma reunião em sua casa em Brighton com Steve, Dave, Janick, Nicko e Bruce. Segundo Rod, Steve estava muito defensivo no início. “Porque nós estamos fazendo isso? Porque podemos gravar um grande álbum de retorno que chocará as pessoas. Eu sei que podemos fazer isso”, disse Rod a todos. Steve foi mais cauteloso, mas não menos direto: “Eu não quero esse retorno e vocês conhecem os motivos. Mas os meus instintos dizem que é a coisa certa a fazer. Bruce é realmente insubstituível”. Rod finalizou: “O bom senso venceu”.

Essa foi a reunião mais curta da carreira da banda, totalizando apenas três minutos. Depois, todos foram para um bar próximo comemorar, onde decidiram que Adrian Smith também estaria de volta, em uma inédita formação com três guitarristas. A banda excursionou durante 1999 tocando para grandes audiências, e em 2000 lançou Brave New World, que ganhou Disco de Ouro em oito países. A carreira do Iron Maiden estava novamente nos trilhos.

Porém, em 2001 a Sanctuary começou a passar por sérios problemas, Matthew Knowles, pai da cantora Beyoncé, havia se tornado executivo da empresa e apostado alto em alguns artistas. Mas quando os álbuns de nomes como De La Soul e D-12 não venderam o esperado, a companhia perdeu muito dinheiro. A expansão americana do grupo se revelou muito cara, e difícil. Rod: “A maior parte da empresa ia extremamente bem – estávamos atendendo alguns dos maiores nomes da música como Elton John, The Who, Beyoncé, Guns N' Roses, Slipknot, Robert Plant e James Blunt, e o braço inglês da Sanctuary, através da Rough Trade, assinou com novos nomes como Strokes, Libertines e Arcade Fire. A aquisição da Castle nos deu um enorme catálogo de classic rock e reggae. O problema era que, quando você é uma companhia aberta, se você tiver um período ruim como o que nós tivemos nos Estados Unidos, com vendas muito abaixo do esperado, o alarme dos acionistas é ligado e a pressão aumenta. E, quando isso acontece, todos os seus concorrentes ficam sabendo. As empresas não querem fechar mais nada com você, porque não sabem como será o futuro da empresa”.

Andy Taylor nega a ideia de que a Sanctuary teve uma expansão exagerada: “O que aconteceu é que, infelizmente, nos demos muito mal no mercado norte-americano”. Bruce também fala sobre o assunto: “O pior é que, analisando as coisas, as ideias da Sanctuary estavam 100% corretas. Eu odeio usar jargões do mundo corporativo, mas o modelo de negócio 360 estava absolutamente correto em todos os aspectos. Hoje, você não pode depender apenas das vendas de discos para sustentar uma banda. Se você está em uma banda, você tem que estar pronto para um monte de outros compromissos, como aparições em eventos, merchandising e afins. O conceito da Sanctuary abrangia tudo isso”.

Em 2005, o grupo Sanctuary passou por uma grande reestruturação. No final de 2006, Smallwood e Taylor deixaram a companhia e criaram outra empresa, a Phantom Music, cujo objetivo era atender apenas uma banda: o Iron Maiden.



Hoje, o Iron Maiden continua sendo um dos maiores nomes do rock. A banda já vendeu mais de 80 milhões de discos. Mas a venda de álbuns está longe de ser a principal fonte de recursos do grupo. Atualmente, o Maiden é uma banda de turnês, com um merchandising fortíssimo, que mantém os negócios com uma rentabilidade sempre alta. Como Rod Smallwood explica: “Com o grande declínio na venda de discos em todo o mundo, hoje é a venda de ingressos e de merchandising que representa a maior parte dos ganhos de um artista. Tudo que envolve o Iron Maiden passa pela minha mesa ou pela de Andy. Isso inclui várias ações legais contra quebra de direitos autorais – sim, a pirataria de produtos oficiais da banda. Para cada produto oficial da banda, temos em média 100 ações por pirataria. Agimos com tolerância zero nesse aspecto. Não queremos que as pessoas prejudiquem a banda e ofereçam material de qualidade inferior para os fãs”.

De acordo com Smallwood, não há nada decidido sobre o futuro do Iron Maiden. Steve Harris confirmou que o Maiden continuará na estrada até quando for possível e a banda sentir prazer no que faz. “Nós sempre falamos que o Iron Maiden encerrará a carreira no topo”.

Steve Harris e Bruce Dickinson estão aprendendo a conviver um com o outro por um bem maior. “Eu ainda acho esse um argumento estranho, mas as pessoas crescem. Hoje estamos mais maduros”, admite Harris. As recentes turnês do grupo tem confirmado isso. Depois de um show em Sofia, na Bulgária, em junho de 2007, Steve e Bruce ficaram no bar do hotel com este jornalista, bebendo e conversando felizes sobre o rock dos anos 70, em particular sobre um de seus discos preferidos, Rising, do Rainbow. Como Harris admite: “Com as idas e vindas de Bruce na banda, eu acho que ele aprendeu a curtir o Maiden como nunca curtiu. Talvez todos nós tenhamos aprendido isso. E enquanto estivermos felizes, vamos continuar”.

Depois de fazer 55 anos em março de 2011, Steve refletiu: “A idade mostra um outro lado. Eu lembro que quando tinha 12 ou 13 anos achava as pessoas que usavam barbas com uma aparência de muito velhas. Hoje eu reflito sobre o que garotos de 14 anos pensam sobre o Iron Maiden. Talvez eles achem que somos parecidos com o Gandalf! Mas isso não importa. Nós temos uma vida e uma carreira fantásticas. Se nós decidirmos parar amanhã, eu posso morrer com um sorriso no rosto”.

(Por Paul Elliott, com tradução de Ricardo Seelig)
(matéria publicada originalmente na edição 159 da revista Classic Rock)

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